Ética em Søren Aabye Kierkegaard, Abraão, um Conflito entre a Fé e a Ética

Um dos mais originais filósofos do século XIX, inicia o existencialismo explorando os conflitos e paradoxos da situações-limite entre fé e ética.

Søren Aabye Kierkegaard (1813 – 1855), filósofo dinamarquês. Foi um dos mais originais e importantes pensadores do século XIX. Considerado o filósofo que inicia o existencialismo.

Kierkegaard, em sua obra aborda temas filosóficos, teológicos e literários, em um estilo marcado fortemente pelo cunho pessoal. Utilizando, frequentemente alter ego e heterônimos para representar as diversas perspectivas da realidade e da existência humana, apresentando, inclusive, estilos distintos. Entre os mais conhecidos estão: Victor Eremita, Constantino Constantius, Johannes de Silentio e Johannes Clímaco.

Visceralmente, marcado por uma severa educação luterana, filho de pastor protestante, o filósofo, sempre manteve uma conflituosa relação com a igreja oficial da Dinamarca.

Graduou-se em teologia na Universidade de Copenhagen em 1841, defendendo a tese sobre o Conceito de Ironia em Sócrates. Em seguida, em Berlim, estudou filosofia, onde teve contato com Friedrich Schelling (1775 – 1854).

Sempre de forma autobiográfica, sua obra é bastante assimétrica, evidenciando angustia, principalmente sobre as questões religiosas. Criticou o hegelianismo, muito difundido na Dinamarca, naquela época, questionando o universalismo e o caráter abstrato e especulativo dessa filosofia. Kierkegaard, ao contrário, buscava valorizar a subjetividade e a experiência individual do encontro com o absurdo do mundo diante do silêncio de Deus, que força o indivíduo a buscar sentido para a própria existência.

Ou seja, é a irracionalidade da experiência com o real junto a impossibilidade de decisões racionais e de podermos justificar nossas ações de maneira ética.

Dessa forma, para Kierkegaard, as questões éticas estão vinculadas a impossibilidade de certeza das escolhas, assim, não poder justificá-las. Para isso, então, é necessário um “salto no escuro”, isto é, é necessário fé, que está além da racionalidade, da justificação ou até mesmo da compreensão.

Em Temor e Tremor de 1843, o filósofo faz referência a epístola de são Paulo aos filipenses, 2 -12, assinando com pseudônimo de Johannes de Silentio, que, por sua vez, é baseado em um personagem do conto dos irmãos Grimm. No texto, Kierkegaard, retoma a história do sacrifício de Isaac, gênesis 22, no antigo testamente, discutindo a questão do supremo sacrifício sem esperança de recompensa, explicações ou justificativas.

Discute, assim, situações-limite, onde princípios éticos – como no caso de Abraão de proteger seu filho – são colocados à prova por princípios mais elevados, isto é, a ordem divina, e, pela fé, que deve ser seguida, mesmo sem conseguir compreendê-la. O conflito está então entre a ética e a fé, ou seja, entre aquilo que é possível compreender e aquilo que não é possível compreender, mas, simplesmente, crer.

O que o filósofo deseja explorar é os conflitos e paradoxos das situações-limite, como a de Abraão, onde o ser humano é colocado à prova sem qualquer explicação, o que causa “aniquilamento” para usar as palavras do próprio autor:

“Quando me ponho a refletir sobre Abraão, sinto-me aniquilado”.

Immanuel Kant em A religião no Limite da razão de 1793, considera, em oposição a atitude de Abraão, que uma pessoa que chega a conclusão que Deus ordenou agir de forma não ética deve estar errada. Porém, em Kierkegaard, Abraão vive um conflito ético entre o dever com seu filho ou o dever com Deus, que no caso, prevalece. Para o filósofo dinamarquês, Abraão não negou a ética ao aceitar fazer o sacrifício de Isaac, mas submete a ética a uma “Suspensão Teleológica” – isto é, a ética esta suspensa enquanto a fé estiver envolvida.

Para Kierkegaard, o silêncio de Abraão é por conta da inexplicável condição em que se encontra, desta forma, seria inútil tentar fazer os outros compreenderem o seu conflito interior. Nas palavras do filósofo:

“quando a esperança se torna absurda, Abraão crê”.

Ou seja, é a fé de Abraão, no final, que salva Isaac, quando deus envia um anjo para substituir Isaac por um cordeiro.

Abraão vive uma experiência individual e radical, onde não encontra explicações nem respostas cabíveis nos princípios universais e abstratos da ética.

Kierkegaard, Søren Aabye