O QUE É IDEOLOGIA para K. Marx, Lenin e GRAMSCI

a IDEOLOGIA GRAMSCISTA é a busca de construção de consenso em torno dos interesses, desta forma, o consenso, que é estabelecido na ideologia, traz o fortalecimento dos grupos que adere.



HISTÓRIA – COMO SURGE A TEORIA DO CONHECIMENTO, A IDEOLOGIA. Inúmeros pensadores através dos séculos buscaram compreender o tema “ideologia”, e, sobre diversas correntes filosóficas, tratam do que é a Teoria do Conhecimento. Desde defender que ideias são elementos preexistentes, aos que argumentam que as ideias nascem da percepção de coisas físicas existentes no exterior da consciência humana. Outros ainda, acreditam que as coisas físicas somente existem enquanto existir na consciência, ou seja, acreditam que ao desvio do olhar deixam de existir.

Desta forma, é possível notar as dificuldades de estabelecer verdades enquanto ideias, ou quais deveriam ser as orientações de comportamento individuais e sociais que precisam ser seguidos. Ou seja, nunca foi simples estabelecer parâmetros comportamentais ou ideológicos. Em certo consenso, as verdades só existem em termo de fato, de juízo ou dogmas.



OS CONCEITOS DE IDEOLOGIA NÃO NASCEM EM COLETIVOS OU PENSADORES MARXISTAS. As ideologias têm um ponto de partida conhecido, o pensamento de Conde Tracy, AntoineLouis-Claude Destutt (1754 – 1836), nascido em Paris, na revolução francesa, ocupou cadeira no parlamento defendendo ideias republicanas em oposição aos bonapartistas, fundou a escola filosófica chamados de “ideólogos”, trazendo ao pensamento que as ideias são elementos naturais oriundos das relações dos homens com a natureza, ou seja, o Conde de Tracy está propondo uma explicação de como nascem as ideias no seio da sociedade.

Porém o termo ideologia nas de seus opositores, os bonapartistas da revolução francesa século XVIII, ou seja, nasce como uma crítica. Era um insulto equivalente a dizer que os ideólogos pautavam suas reflexões não no mundo real, mas nos devaneios das ideias.



Para Karl Marx (1818 – 1883), a ideologia é o conjunto de ideias que servem de ilusão, com o intuito de mascarar a verdadeira luta de classes, e, então, conservar a exploração justificando como elemento natural. Considerando que, para Marx, ideologia é o pensamento burguês, o capitalismo.

Ou seja, a consciência de classe é a compressão da classe operária e de sua condição. Desta forma, o operário precisa olhar para si mesmo como uma classe distinta daquela que possui o capital. E, aqueles que defendem este modo burguês, está falseando a realidade através de uma ideologia, logo, não possui uma “consciência de classe”.

Vladimir Lenin (1870 -1924), de outro modo, pensa o termo ideologia não mais de forma negativa, mas de maneira a transformá-la em uma concepção legitima da realidade, englobando a classe dominante e classe dominada. Para Lenin, todo e qualquer grupo social precisa de alguma forma legitimar suas práticas sociais, e suas crenças, já que as classes têm seus próprios interesses, desta forma precisa de formulações teóricas para legitimá-las, para que faça sentido.



Antônio Gramsci
Foto em preto e branco de Antônio Gramsci

Enfim, Antônio Gramsci (1891 – 1937), filósofo italiano de orientação marxista, e que desde muito cedo já havia absorvido as ideias de Lenin, aprendeu que a luta da classe operária não teria sucesso sem a construção de lideranças e partidos revolucionários. Então, acaba por notar que a ideologia é uma verdade que solidifica e cria a estabilidade na sociedade.

Em Gramsci o conjunto de ideias cria o senso comum que afirmará, posteriormente o que é justo e o comportamento apropriado. Ou seja, uma ideologia depois de ser aceita se torna consenso, então hegemônica e racional. Pelo menos até novas ideias surgirem e tomar o lugar no sistema. Gramsci entende ideologia como sendo um fator histórico, mutável cheios de rompimentos e extinções.

Para compreender melhor, para Gramsci, a ideologia marxista também irá ser superada, como qualquer outra ideologia, basta que a ideologia que a mantém de pé também deixe de existir. Ou seja, assim que a propriedade privada for abolida e os meios de produção forem coletivizados, a contra ideologia, o marxismo, perece junto, porque aquilo que era visto como ideologia para a ser visto como realidade, ou a nova estrutura ideológica.

Desta forma, a realidade do mundo nunca é imutável, dogmática ou intransponível, pelo contrário, a ideologia é influenciável se reformulando sempre e gerando algo novo, que não necessariamente é diferente do seu oposto. Assim, diante de novos determinantes, as ideologias se reconfiguram e se conserva, mesmo que somente em conteúdo ou temática.



PARA GRAMSCI A IDEOLOGIA É O ESTRUTURADOR DA SOCIEDADE. É um mecanismo que se bem usado diminuirá a necessidades de força violenta e coerção estatal, para impor outra realidade. Assim a ideologia é uma maneira cordial de buscar o consenso para explicar a ou justificar a realidade.

Então, a IDEOLOGIA GRAMSCISTA é a busca de construção de consenso em torno dos interesses, desta forma, o consenso, que é estabelecido na ideologia, traz o fortalecimento dos grupos que adere.

Há, ainda, o uso do senso comum como mecanismo estruturador da sociedade. É em cima do senso comum que serão construídas todas as outras visões de mundo dos indivíduos – mesmo que de maneira incoerente e desconexa da realidade – porém com trocas constantes de ideias entre a ideologia considerada hegemônica, e com reformulação no campo cultural da ideologia contra hegemônica (marxismo), desta forma, ganhando autonomia, e avançando para noções mais claras.

Como dito anteriormente, em Karl Marx sobre a consciência de classe, o proletário precisa se perceber como classe, então perceberá as contradições próprias das ideologias, para só então insurgir. Gramsci vê esta estrutura de forma que possa atuar sobre ela, afirmando que são necessários operários intelectivos do marxismo para orquestrar essa manifestação quando ocorrer.

Ou seja, a luta não é no campo intelectual ou político, no processo revolucionário o importante é o intelectual orgânico, para adentrar o campo intelectual e cultural. E, somente através dos intelectuais orgânicos que a tão sonhada consciência de classe será fortalecida e ampliada.



Outro ponto importante em Gramsci é o significado e a importância das escolas, serão lá que as maturações nas cabeças dos educandos serão organizadas. Gramsci, vê nas escolas o canal que possibilitará a construção de consciência de classe, e a emancipação cognitiva e cultural. A escola é o local de conflitos cultural e dialético para, segundo Gramsci, avançar no sentido da autoconsciência.

A INFLUÊNCIA DO GRAMSCISMO NO BRASIL. Em Paulo Freire é possível notar as características dessa doutrina quando considera que há no aluno um conhecimento prévio, ou seja, sua cultura, afirmando que tal conhecimento, mesmo que senso comum, é a realidade do aluno e é a partir de tal ponto que o professor deve desconstrui-la, e buscar a mudança que deseja, tanto psicológica quanto cognitiva. É a partir do já conhecido que de orientar para mudança ou nova realidade.



Selvagem é o Socialismo

As mentiras são costumeiras e fazem parte do ônus da liberdade, mas sempre levam a erros, principalmente, conceituais. Ouvir que o capitalismo leva a miséria, ou que o acúmulo de riqueza só existe porque há pobres, é senso comum por todos os lados, mesmo essas chamadas sensacionalistas sendo nada mais que um devaneio cheio de incoerência.



NA ERA DA INFORMAÇÃO E DAS PÓS-VERDADES, há inúmeras mentiras que circulam sem qualquer fundamento, somado a isso, a incapacidade dos indivíduos de discernir a respeito dos diferentes assuntos que saltam à tela todos os dias sem cessar.

As mentiras são costumeiras e fazem parte do ônus da liberdade, mas sempre levam a erros, principalmente, conceituais. Ouvir que o capitalismo leva a miséria, ou que o acúmulo de riqueza só existe porque há pobres, é senso comum por todos os lados, mesmo essas chamadas sensacionalistas sendo nada mais que um devaneio cheio de incoerência.

Porém, entre as mentiras mais distante da verdade esta “CAPITALISMO SELVAGEM” termo primeiramente cunhado por k. Marx (1818 – 1883), em O Capital, agora, usam para se referir a grandes corporações mundiais, mas sem qualquer definição plausível, pergunte a alguém o que é capitalismo selvagem, provavelmente ninguém responderá de forma, no mínimo, coerente, ou entrarão em um consenso, ou seja, é uma dessas palavras que esta na boca de todo mundo e ninguém sabe o que é.



Mas o que quero dizer realmente é que selvagem é o socialismo. O socialismo é selvagem quando suprime a liberdade dos indivíduos, quando arranca sua vontade de potência e o joga no meio da turba, é selvagem quando transforma o coletivo em um meio de agressão de forma impiedosa.

Selvageria é dilacerar o espírito dos fortes e dar seu sangue aos incapazes de olhar para si mesmo como indivíduo responsável por si próprio, é selvageria sugar a vontade de conquista, e entrega para aqueles que preferem a calmaria das multidões, o conforto das opiniões simples e do jeito fácil. Para se manter no poder, políticos roubam dos que produzem e entregam como esmola aos que tem medo ou incapacidade de produzir, aos invejosos! Isto é ser selvagem. Selvagem é o coletivismo!

A livre iniciativa é a resposta do indivíduo para com o mundo externo, para criar soluções e facilidades em troca de alguma coisa. Quando ideias socialistas pervertem esse “sentimento” o sujeito se vê preso e restrito aos conluios com os governos ou com as manadas que o cerca. Quanto maior a liberdade, maiores serão as necessidades e maior será a vontade de romper tais necessidades, assim cria-se riqueza – com liberdade!

A liberdade é colocar a prova a moral do Homem. Sem liberdade não há qualquer resquício de moral, se não há escolhas não se pode optar pelo certo ou pelo bem. Só é possível escolher o certo/bem se existir a possibilidade do errado/mal. É a possibilidade de escolha que pode decidir o que é o belo e moral.

O socialismo é imoral porque rouba o primordial, a liberdade. Faz o mundo parecer perigoso, assim, suprime a coragem e faz com que todos vivam como gados.



Não somente os socialistas, mas todos as formas de coletivismo, fizeram os fortes parecerem maus. Quando Jean-Jacques Rousseau (1712 – 1778), escreve em “Discurso da Desigualdade “O primeiro homem que cercou um pedaço de terra e disse que era sua propriedade e encontrou pessoas que acreditaram nele foi o fundador da sociedade civil. Daí vieram muitos crimes, muitas guerras, horrores e assassinatos que poderiam ter sido evitados se alguém tivesse arrancado as cercas e alertado para que ninguém aceitasse este impostor. Não podemos esquecer que os frutos da terra pertencem a todos nós e a terra a ninguém” ou outros coletivistas que falam em emparelhamento dos homens – sempre através do Estado – negam os instintos mais profundos. Ao cercar, os homens estava se protegendo, ao fazer do espaço propriedade separada o obteve o necessário para desenvolverem suas potencialidades, quando os outros viram as possibilidades de troca e ajuda mútua tiveram que desenvolver a moral, o direito, e a justiça. Não existe justiça sem propriedade privada, já a que a ideia  de propriedade é diretamente vinculada a de direito a algo ou alguma coisa, então, a injustiça é a invasão e violação desse direito, como demonstra John Locke (1632 – 1704) e F. A Hayek (1899 – 1992). Depois, dizer que a violência surgiu após a propriedade separa é notável falácia, quando a verdade é justamente ao contrário. A natureza é violenta, e foi justamente a capacidade de respeito mútuo pelos direitos naturais que nos elevou para além da condição de animais.

Os fortes, em qualquer espécie animal sobre a Terra, são os que delimita seu espaço, forjam suas próprias armas, produzem sua própria comida e alimenta sua prole. Forte sabem que o mundo é muito mais deveres do que direitos. O socialismo é selvagem, principalmente porque é coletivista!

Há inúmeros e persistentes erros na interpretação da história, mesmo que a história seja contada de um ponto de vista, é impossível que qualquer pessoa com senso crítico não veja que o capitalismo foi, entre as opções disponíveis a 100 anos, a melhor opção. Poderia, ainda, falar dos mitos da Revolução Industrial, interpretada como escravidão quando, na verdade, foi a emancipação do homem e de sua vida no campo, servindo antigos senhores feudais, desmistificar ideias equivocadas sobre livre mercado e pobreza. entre tantos outros.

Mas, o que desejei mostrar, de forma simples, é que tais discursos são, principalmente, desonestos e vazios. E, novamente, há uma diferença enorme entre informação e instrução.



LIBERDADE E A ORIGEM DA VIOLÊNCIA REVOLUCIONÁRIA em Karl Marx

Esta violência têm origens no método materialista dialético na história, tendo em vista que o controle dos meus de produção não poderia ser espontâneo. Tal violência é inspirada nos jacobinos porém negando seu viés republicano, tornando assim a violência o elemento primordial da luta de classes…



KARL MARX, LIBERDADE E A ORIGEM DA VIOLÊNCIA REVOLUCIONÁRIA. Como em todos os casos, Marx não foge à regra, define liberdade segundo suas convicções políticas e ideológicas. Para György Lukács (1885 – 1971), influente marxista do século XX, a definição nasce de sua admiração pelo jacobinismo ou democratismo radial. O jovem Marx entre 1840 – 1845 esta em transição de um democrata para o comunismo revolucionário. Desta forma há uma forte influência sobre sua concepção de liberdade, com uma definição partindo do jacobinismo se aprofundando em comunismo revolucionário. Então, é impossivel separar o conceito de liberdade de Marx de sua forma/definição de revolução, já que, seja por desagrado com uma burguesia ou com, segundo o próprio Marx, uma revolução insuficiente com o jacobinismo, a liberdade humana passa pela revolução, e o sujeito (proletário) é o agente da sua própria liberdade – a revolução. Aparentemente, até 1842 libertário e admirador da revolução francesa, acaba por identificar-se com o radicalismo. Em 1843 desiludido com a burguesia liberal alemã rompe com a buguesia radical.

Com essas características, a liberdade para Marx não são as mesmas dos dicursos de John Locke (1632 -1704) e de John Stuart Mill (1806 – 1873), em direção da propriedade privada, pois são contrários aos verdadeiros interesses da ideologia comunista, desta forma Marx precisa renovar a ideia de Alienação.



O Fenômeno da Alienação. Em “Teses Sobre Feuerbach” Marx acredita que o ser humano entra em processo de autodestruição e aliena-se a si mesmo projetando um deus imaginário. O que chama “ópio do povo” é a fuga humana, o homem oprimido pelo meio social busca no imaginário da fé um conforto. Então, em “O Capital” torna explícito sua ideia de trabalho. O trabalho ao invés de realizar existencialmente o homem torna-o alienado de si mesmo, já que Marx considera o trabalho externo ao homem, ou seja, não pertence ao seu ser. Assim, o homem não se afirma no trabalho mas precisa renegar a si mesmo para executar a tarefa que esta imposta, desta forma fica infeliz definhando seu próprio corpo por que é incapaz de nutrir seu intelecto, destruindo a si mesmo. Por isso, somente fora do trabalho o homem se sente pleno, porque encontra a si mesmo. Isso o leva a crer que, o trabalho nunca é voluntário, mas uma opressão, sempre será um trabalho forçado. Isto posto, o trabalho torna o operário cada vez mais alienado e pobre na mesma medida que produz para o capitalista, seu patrão.

Retornando. Apesar de Marx falar de liberdade sobre diversos aspectos, Marx não conceitua liberdade. Para Michael Löwy (1938), isso se deve ao fato de Marx ser influenciado por Ludwig Feuerbach (1804 – 1872), e justifica sua afirmação com as palavras do próprio Marx: “Assim que o relâmpago do pensamento tiver penetrado no fundo desse ingênuo terreno popular, os alemães se emanciparão (…) A filosofia é a cabeça dessa emancipação (do homem); o proletariado, o coração”, isso quer dizer que Marx acreditava na filosofia como uma função de emancipação do homem, na superação da dualidade entre razão e paixão, intelecto e massa.

Portanto, para definir liberdade Marx pensa nas revoltas de trabalhadores, e no contato com os operários comunistas na França, ou seja, precisa do conteúdo social. O sujeito proletário precisa se reencontrar com a finalidade trabalho, já que Marx considera o trabalho externo ao homem, desse modo, opressor.

Então, é necessário que o sujeito social da liberdade se transforme em um revolucionário ativo, somente assim o proletário reencontrará sua personalidade, suas potencialidades criativas em uma humanidade livre em capacidades. Para Michael Löwy isso quer dizer uma auto libertação e auto educação.



Assim, unindo a teoria dialética e lutas de classes fica claro, para Marx a violência é o caminho histórico para libertação quando diz: “(…) as armas da crítica não podem de fato substituir a crítica das armas; a força material deve ser deposta por força material“, desta forma, Marx sai do jacobinismo em direção a revolução pensado que liberdade só será possível se houver igualdade no trabalho. Em 1848 em “Manifesto do Partido Comunista” Marx e Engels escreve “Os comunistas se recusam a dissimular suas opiniões e seus projetos. Proclamam abertamente que seus objetivos não podem ser alcançados senão pela derrubada violenta de toda ordem social passada. Que as classes dominantes tremam diante de uma revolução comunista! Os proletários nada têm a perder a não ser suas cadeias. Têm um mundo a ganhar. Proletários de todos os países, uni-vos!“.

Para Marx não existe liberdade sem revolução, e a violência é uma condição da revolução. Esta violência têm origens no método materialista dialético na história, tendo em vista que o controle dos meios de produção não poderia ser espontâneo. Tal violência é inspirada nos jacobinos porém negando seu viés republicano, tornando assim a violência o elemento primordial da luta de classes para a conquista do poder político e produtivo. A revolução comunista a partir do materialismo dialético é orientada para abolição da propriedade privada.



PARA ENTENDER O CONTEXTO. Os Fundamentos do Materialismo Dialético e Histórico. É materialismo por que o conteúdo é material, no sentido de fenômenos naturais, e dialético porque se apoia no conteúdo dialético de Georg Wilhelm Friedrich Hegel (1770 – 1831), no sentido de evolução dos fenômenos sociais, e histórico por que aplica o materialismo na dialética, ou seja, fenômenos materiais aplicados na evolução dos fatos sociais no desenrolar do tempo.

É necessário lembra também que tal tese Hegeliana foi amplamente discutida e questionada por diversos autores.

Deixo a reflexão de Battista Modin (1926) de opnião oposta ao sistema Hegeliano “O pensamento não põe nem cria a realidade. Ele a constata. A interioridade idealista, reduzindo a realidade ao pensamento” em ” Curso de Filosofia” p. 18 Ed. Paulus.



DETURPARAM MARX? Entre os delírios socialistas e a inconveniente realidade

Há, todos os dias, alguém para dizer: “ deturparam Marx! ” Mas a história recente mostra outra, incontestável, versão, pelo menos na antiga União Soviética foram aplicadas boa parte da teoria marxista. Assim o começo do século XX foi manchado pelo vermelho-sangue com respaldo, ou através de boa parte, do que era chamado de socialismo.



Há, todos os dias, alguém para dizer: “ deturparam Marx! ” Mas a história recente mostra outra, incontestável, versão, pelo menos na antiga União Soviética foram aplicadas boa parte da teoria marxista. Assim, o começo do século XX foi manchado pelo vermelho-sangue com respaldo, ou através de boa parte, do que era chamado de socialismo.

Os socialistas/comunistas ofereceram ao mundo uma nova configuração para a sociedade. Era a resposta para solucionar problemas básicos e de sobrevivência material das populações, a solução para o fim da opressão causada pelo capitalismo. E, para isso, era necessário banir as classes sociais. Seria uma nova sociedade, igualitária e livre dos problemas causados pelo livre-mercado, assim, a emancipação do homem no mundo, estaria completa.

Mas, como sempre, e desde o princípio, infelizmente para os socialistas a realidade bate à porta. Entre promessas e realidade há um abismo e o sonho socialista foi por água abaixo, mas, não sem antes deixar seu rastro de morte e destruição por onde passou, neste caso, União Soviética.

Longe da liberdade e da igualdade prometida, a história da União Soviética e da Revolução de 1917 para uma instauração de regime comunista, mostra que nem tudo são flores e que a realidade é cruel. O Estado se mostrou ainda mais opressor e as desigualdades ainda maiores. Mortes e desaparecimento de diversas pessoas tanto da esquerda como da direita, mostrava o cenário muito desconexo das promessas de outrora, os sonhos de ampliação da democracia tornaram-se um pesadelo!

A URSS passou a perseguir todos aqueles que não louvassem o ÚNICO PARTIDO, ou o chefe infalível. Representando um imenso retrocesso para toda população e, agora, uma ditadura sem qualquer liberdade, igualdade ou justiça.

Felizmente o socialismo acaba oficialmente em 1991 com o fim da URSS, mas os rastros de violência seguem até hoje.



Marx e a União Soviética entre a Teoria e a prática 

Karl Marx (1818 – 1883) acreditava que a base da exploração capitalista era a propriedade privada. Logo, a conclusão é, abolir a propriedade privada e socializar os meios de produção e de distribuição, segundo K. Marx com isso a riqueza produzida perderia seu o caráter de valor, assim se reduzindo ao valor de uso, ou seja, produtos para satisfação das necessidades humanas. A própria força de trabalho perderia seu caráter de mercadoria com a eliminação do trabalho assalariado. Acreditava que suprimindo a propriedade privada ninguém conseguiria explorar o outro.

Na URSS toda propriedade privada foi abolida. Houve a nacionalização dos meios de produção e da distribuição – a nacionalização da terra de forma violenta e cruel, e, segundo Moshe Lewin (1921 – 2010) contra a vontade dos camponeses.

Infelizmente a eliminação da propriedade privada e dos meios de produção não foi como teorizado, ou seja, para as mãos e controle do povo, pois, obviamente, ao suprimir a propriedade se suprime junto o poder intrínseco a ela. A natureza da liberdade está condicionada a propriedade, sem a garantia da propriedade não há onde o indivíduo se resguardar, seja da violência física ou psicológica. Porém, os burocratas do Estado sim!

Apesar da propriedade ter sido declarada juridicamente pública, e não estatal, os homens do Estado são os que controlam “a coisa pública” e no Estado sempre estão os homens do partido.

Há, ainda, o Plano Econômico Centralizado. Através de um plano centralizador era estabelecido impostos sem qualquer discussão democrática entre os produtores e consumidores e o Estado. A prática coerciva de arrecadação continuava, e, agora, não havia qualquer oposição.



Outra característica era a Superação da Divisão Social do Trabalho – K. Marx acreditava que existia um topo de onde poucos comandavam enquanto a grande maioria dos trabalhadores, simplesmente executava tarefas sem controle dos instrumentos de trabalho, ou seja, era contra a especialização do trabalho, acreditava que todos deveriam ter plena consciência de todo o processo de produção da mercadoria. Esta característica de divisão era alienante para os produtores, então, era necessário eliminar não somente a relação homem-trabalho, campo e cidade, mas também entre trabalho manual e trabalho intelectual.

Isso não somente não foi possível devido as características individuais, físicas e intelectuais, como desde cedo criou-se apenas duas classes sociais, os burocratas de alto escalão, que se apoderou de toda as tarefas de planejamento, administração e controle – sem, uma relação direta com a produção – e, a outra, grande massa de produtores que não tinham qualquer controle sobre a produção, desprovida de poder sobre os investimentos e consumo, ou o controle da produção e, menos ainda, sobre o ritmo de trabalho.

Quanto aos salários. K Marx admitia que seres humanos são desiguais e que mesmo em um mundo de igualdade os homens seriam desiguais. Então ele propõe que seja cobrado de cada um segundo suas capacidades e dar a cada um segundo suas necessidades – eu não acredito que alguém consegue ver possibilidade nisso! Mas, continuando… Então, a URSS continua com as relações de trabalho assalariado. Mas, agora, está pior. O trabalhador não conseguia produzir se não somente para própria subsistência, já que o Estado arrancava das mãos do trabalhador parte do produto excedente, e, mais, havia também os altos impostos para sustentar a nova burocracia. Assim, ao fim da história, foi possível constatar que a desigualdade social e a alienação do produto não se relacionam com a propriedade privada, como acreditava K. Marx.

Em “Ideologia Alemã” K. Marx imaginou que sem classes e sem a exploração o Estado Progressivamente Desapareceria como consequência. Mesmo negando o anarquismo K. Marx e F. Engels (1820 – 1895) acreditavam que o próprio Estado prepararia sua extinção, ou seja, o Estado e o capitalismo teriam seu fim juntos e uma população autogestora surgiria das cinzas do velho mundo. É de uma inocência fora do normal ou cinismo? Decidam por vocês mesmos.



Mas a realidade é outra, seres humanos são egoístas! Agem segundo suas vontades e farão de tudo para conquistar seus objetivos e manter seus privilégios. E junto aos delírios vem o ônus dos delírios. O Estado é um mostro e crescerá sempre na medida em que for alimentado. E, na URSS cresceu através da burocracia e da violência, tornou as relações assimétricas, enfraqueceu os indivíduos e os desorganizou. Então, um único partido, dono do Estado, com um regime cruel e desumano floresceu através das perseguições e delações.

O totalitarismo da URSS proibiu tanto outros partidos como fragmentações. Suspendeu os direitos democráticos, coletivos e individuais. Assassinou opositores, inclusive da própria esquerda do stalinismo. Teve rígido controle da imprensa, com censuras, onde só poderiam noticiar versões oficiais, qualquer crítica, visão alternativa ou acontecimentos negativos eram rechaçados. Foram suprimidas as organizações sociais, e mantinham sindicatos no cabresto do Estado, assim o stalinismo iludia os trabalhadores com falsas ideias que estavam no poder através do Estado. Não concebia qualquer pluralidade, qualquer um que apresentasse autonomia era visto como opositor, uma ameaça ao regime ou falta de submissão.

Há aqueles que não admitem as relações, as características e os fatos de que a teorias socialista foi colocada em prática, e, existem aqueles que sabem e admitem os erros característicos do marxismo, porém, como sempre, atribuem os erros a algo externo a teoria. Como sempre a culpa nunca é da inviabilidade do socialismo, mas de fatores para além da teoria, como atraso material e cultural da população da velha Rússia, isolamentos etc. Há desculpa para tudo! Mas fica a pergunta: se o socialismo só é possível em um lugar em que já existe prosperidade material e cultural, então é melhor deixar o capitalismo agir primeiro, certo? Já que o comunismo é incapaz de gerar tais condições. E, se é assim, para que serviria o socialismo em um lugar onde as pessoas já têm tudo o que precisam para viver? Estas questões levantadas servem para questionar tanto os marxistas como o próprio K. Marx, pois, ele acreditava que as revoluções ocorreriam primeiro em lugares prósperos.

Mas, todos aqueles que simplesmente dizem que o socialismo é uma ideia de liberdade e generosidade são os que menos bagagem teórica possuem, precisam de palavras subjetivas para defender uma teoria que na prática já foi desmascarada – mostram uma completa desconexão com a realidade! Não importa quais as intenções pelas quais as ideias são concebidas, cabe, simplesmente, saber qual a viabilidade prática. Por mais bem-intencionada que seja uma teoria é na prática que deve se provar necessária e verdadeira.



CAPITALISMO E O DIREITO BUGUÊS DE SER FÚTIL.

A sociedade de mercado – capitalista – trouxe inúmeras facilidades para o codiano, e, com isso, uma geração de mimados se levantou, agora exigem todos seus direitos à futilidades.



Capitalismo, leia-se Livre Mercado, é, sem dúvidas, o melhor sistema econômico criado. Não houve na história humana um sistema que, em tão curto espaço de tempo, tenha tirado um número tão expressivo de pessoas da miséria. Um sistema, que nos últimos 200 anos, elevou as condições de vida humana a ponto de nos fazer esquecer a nossa condição diante da natureza – a pobreza!

Mas o conforto leva a uma certa frivolidade.

Pode-se argumentar que grande maioria da população é movida por suas frivolidades, são ociosas, fúteis e pouco se importam com questões intelectuais. Mas não é inteiramente verdade. Há em Sêneca (4 a.c – 65 d.c) uma preocupação com setores subalternos da sociedade romana. O que chama a atenção é sua doutrina de moderação da parte do soberano para não criar oposições e instabilidade no poder, ou seja, constantes negociações com os diversos setores sociais, seja aristocrata ou não. Isso leva a crer que havia relevância nos setores populares para a manutenção do poder do imperador. O que quero dizer é que nem sempre a ociosidade e a frivolidade são características gerais.

Os trabalhos braçais, coisa que ocorreu na maior parte da história humana, ocupavam um grande período de tempo dos trabalhadores, deixando assim muito pouco, ou quase nada de tempo para contemplação da existência. Apesar de concordar com aqueles que argumentam que os benefícios do capitalismo vão além do material, e que há uma elevação moral, de tolerância, e etc. como Benjamin M. Friedman (1944), tenho também que concordar com Luiz Felipe Pondé (1959) quando diz que o capitalismo criou uma geração mimada.



Todo o conforto criado pela sociedade de mercado deu origem, aparentemente, aos seres humanos mais mimados que já passou pela face da Terra. Acreditam realmente que existe direitos para além das obrigações.

Nossos antepassados sabiam que nem ao menos comer era um direito, sabia que caso não estivesse na lavoura ou caçando assim que o sol estivesse raiando não teria o que comer quando o sol se colocasse no horizonte. Hoje, é direito ter um Iphone! A preguiça os faz confundir benefícios com direitos.

Os antigos socialistas – os de verdade, não esse novo fetiche capitalista que chamam de socialismo – diziam que o direito é um sistema burguês usado para domesticar as massas. Friedrich Engels (1820 – 1895) e Karl Kautsky (1854 – 1938), em “Socialismo Jurídico” fizeram uma análise da passagem do mundo em estágio feudal para a concepção de mundo burguesa – a qual chamam de natureza burguesa do direito, relacionando o desenvolvimento, e passagem entre os mundos, ao intercambio de mercadorias.

Hoje, os adeptos socialistas não sabem o que foi o socialismo e, muito menos, saberiam viver sem o capitalismo é uma adesão completa ao estilo de vida burguesa e tudo que os resta é gritar a plenos pulmões – é direito!



O capitalismo estendeu o direito burguês de ser fútil!

Mas, a vida é fútil mesmo, e a fuga do tédio leva a frivolidades – estou pensando em Schopenhauer (1788 – 1860) quando digo isso, quando ele diz que o a vida é um pêndulo entre os desejos e o tédio.

Todos os dias há na televisão uma senhora, agora senhores também, mostrando suas casas, sala de jantar, roupas caríssimas e a prataria nobre. Uma demonstração da vitória da frivolidade burguesa, porque os ricos não têm algo a dizer e os mais pobres têm tempo para escutar toda a bobagem produzida por eles, entre eles há um “espertinho” falando de desigualdade social na internet para preencher o vazia que ninguém quer adentrar. Resumindo, um mundo de futilidades para preencher a monotonia do nada.

Concordo com Emil Cioran (1911 – 1995), “a frivolidade é um privilégio” e também com Charles Bukowski (1920 – 1994), “o mundo exagera demais na sua importância”, e quando diz: “o mundo, infelizmente, vivia infestado de bilhões de criaturas que não têm nada para fazer a não ser matar o tempo e matar a gente”. Parece que toda essa frivolidade é uma forma de fugir de si mesmo.

Parece-me que, de alguma forma, todos concordamos quando o sábio pregador diz: vaidades de vaidades, tudo é vaidade.

Até nós, filósofos, só podemos pensar porque todas as outras necessidades já foram supridas. Mesmo que entremos na mais profunda e honesta filosofia o tempo dedicado a ela é o tempo de fuga da monotonia. E isso também pode ser o tempo entregue a vaidade, e, até certo ponto, ao fútil.

O mundo mudou, a natureza humana não, sempre fomos o que somos, porém, agora, temos mais tempo para a contemplação do nada.