O QUE É IDEOLOGIA para K. Marx, Lenin e GRAMSCI

a IDEOLOGIA GRAMSCISTA é a busca de construção de consenso em torno dos interesses, desta forma, o consenso, que é estabelecido na ideologia, traz o fortalecimento dos grupos que adere.



HISTÓRIA – COMO SURGE A TEORIA DO CONHECIMENTO, A IDEOLOGIA. Inúmeros pensadores através dos séculos buscaram compreender o tema “ideologia”, e, sobre diversas correntes filosóficas, tratam do que é a Teoria do Conhecimento. Desde defender que ideias são elementos preexistentes, aos que argumentam que as ideias nascem da percepção de coisas físicas existentes no exterior da consciência humana. Outros ainda, acreditam que as coisas físicas somente existem enquanto existir na consciência, ou seja, acreditam que ao desvio do olhar deixam de existir.

Desta forma, é possível notar as dificuldades de estabelecer verdades enquanto ideias, ou quais deveriam ser as orientações de comportamento individuais e sociais que precisam ser seguidos. Ou seja, nunca foi simples estabelecer parâmetros comportamentais ou ideológicos. Em certo consenso, as verdades só existem em termo de fato, de juízo ou dogmas.



OS CONCEITOS DE IDEOLOGIA NÃO NASCEM EM COLETIVOS OU PENSADORES MARXISTAS. As ideologias têm um ponto de partida conhecido, o pensamento de Conde Tracy, AntoineLouis-Claude Destutt (1754 – 1836), nascido em Paris, na revolução francesa, ocupou cadeira no parlamento defendendo ideias republicanas em oposição aos bonapartistas, fundou a escola filosófica chamados de “ideólogos”, trazendo ao pensamento que as ideias são elementos naturais oriundos das relações dos homens com a natureza, ou seja, o Conde de Tracy está propondo uma explicação de como nascem as ideias no seio da sociedade.

Porém o termo ideologia nas de seus opositores, os bonapartistas da revolução francesa século XVIII, ou seja, nasce como uma crítica. Era um insulto equivalente a dizer que os ideólogos pautavam suas reflexões não no mundo real, mas nos devaneios das ideias.



Para Karl Marx (1818 – 1883), a ideologia é o conjunto de ideias que servem de ilusão, com o intuito de mascarar a verdadeira luta de classes, e, então, conservar a exploração justificando como elemento natural. Considerando que, para Marx, ideologia é o pensamento burguês, o capitalismo.

Ou seja, a consciência de classe é a compressão da classe operária e de sua condição. Desta forma, o operário precisa olhar para si mesmo como uma classe distinta daquela que possui o capital. E, aqueles que defendem este modo burguês, está falseando a realidade através de uma ideologia, logo, não possui uma “consciência de classe”.

Vladimir Lenin (1870 -1924), de outro modo, pensa o termo ideologia não mais de forma negativa, mas de maneira a transformá-la em uma concepção legitima da realidade, englobando a classe dominante e classe dominada. Para Lenin, todo e qualquer grupo social precisa de alguma forma legitimar suas práticas sociais, e suas crenças, já que as classes têm seus próprios interesses, desta forma precisa de formulações teóricas para legitimá-las, para que faça sentido.



Antônio Gramsci
Foto em preto e branco de Antônio Gramsci

Enfim, Antônio Gramsci (1891 – 1937), filósofo italiano de orientação marxista, e que desde muito cedo já havia absorvido as ideias de Lenin, aprendeu que a luta da classe operária não teria sucesso sem a construção de lideranças e partidos revolucionários. Então, acaba por notar que a ideologia é uma verdade que solidifica e cria a estabilidade na sociedade.

Em Gramsci o conjunto de ideias cria o senso comum que afirmará, posteriormente o que é justo e o comportamento apropriado. Ou seja, uma ideologia depois de ser aceita se torna consenso, então hegemônica e racional. Pelo menos até novas ideias surgirem e tomar o lugar no sistema. Gramsci entende ideologia como sendo um fator histórico, mutável cheios de rompimentos e extinções.

Para compreender melhor, para Gramsci, a ideologia marxista também irá ser superada, como qualquer outra ideologia, basta que a ideologia que a mantém de pé também deixe de existir. Ou seja, assim que a propriedade privada for abolida e os meios de produção forem coletivizados, a contra ideologia, o marxismo, perece junto, porque aquilo que era visto como ideologia para a ser visto como realidade, ou a nova estrutura ideológica.

Desta forma, a realidade do mundo nunca é imutável, dogmática ou intransponível, pelo contrário, a ideologia é influenciável se reformulando sempre e gerando algo novo, que não necessariamente é diferente do seu oposto. Assim, diante de novos determinantes, as ideologias se reconfiguram e se conserva, mesmo que somente em conteúdo ou temática.



PARA GRAMSCI A IDEOLOGIA É O ESTRUTURADOR DA SOCIEDADE. É um mecanismo que se bem usado diminuirá a necessidades de força violenta e coerção estatal, para impor outra realidade. Assim a ideologia é uma maneira cordial de buscar o consenso para explicar a ou justificar a realidade.

Então, a IDEOLOGIA GRAMSCISTA é a busca de construção de consenso em torno dos interesses, desta forma, o consenso, que é estabelecido na ideologia, traz o fortalecimento dos grupos que adere.

Há, ainda, o uso do senso comum como mecanismo estruturador da sociedade. É em cima do senso comum que serão construídas todas as outras visões de mundo dos indivíduos – mesmo que de maneira incoerente e desconexa da realidade – porém com trocas constantes de ideias entre a ideologia considerada hegemônica, e com reformulação no campo cultural da ideologia contra hegemônica (marxismo), desta forma, ganhando autonomia, e avançando para noções mais claras.

Como dito anteriormente, em Karl Marx sobre a consciência de classe, o proletário precisa se perceber como classe, então perceberá as contradições próprias das ideologias, para só então insurgir. Gramsci vê esta estrutura de forma que possa atuar sobre ela, afirmando que são necessários operários intelectivos do marxismo para orquestrar essa manifestação quando ocorrer.

Ou seja, a luta não é no campo intelectual ou político, no processo revolucionário o importante é o intelectual orgânico, para adentrar o campo intelectual e cultural. E, somente através dos intelectuais orgânicos que a tão sonhada consciência de classe será fortalecida e ampliada.



Outro ponto importante em Gramsci é o significado e a importância das escolas, serão lá que as maturações nas cabeças dos educandos serão organizadas. Gramsci, vê nas escolas o canal que possibilitará a construção de consciência de classe, e a emancipação cognitiva e cultural. A escola é o local de conflitos cultural e dialético para, segundo Gramsci, avançar no sentido da autoconsciência.

A INFLUÊNCIA DO GRAMSCISMO NO BRASIL. Em Paulo Freire é possível notar as características dessa doutrina quando considera que há no aluno um conhecimento prévio, ou seja, sua cultura, afirmando que tal conhecimento, mesmo que senso comum, é a realidade do aluno e é a partir de tal ponto que o professor deve desconstrui-la, e buscar a mudança que deseja, tanto psicológica quanto cognitiva. É a partir do já conhecido que de orientar para mudança ou nova realidade.



INFORMAÇÃO é DIFERENTE DE INSTRUÇÃO

Schopenhauer (1788 – 1860), em “A arte de escrever” faz uma crítica ao dizer “(…) de todos os tipos e de qualquer idade têm em mira apenas a informação, não a instrução”, ou seja, não compreenderam ainda que as informações são meros meios para chegar a uma fonte de instrução.



De modo geral – a média das pessoas não são capazes de compreender a própria opinião! Schopenhauer (1788 – 1860), em “A arte de escrever” faz uma crítica ao dizer “(…) de todos os tipos e de qualquer idade têm em mira apenas a informação, não a instrução”, ou seja, não compreenderam ainda que as informações são meros meios para chegar a uma fonte de instrução. Já passaram mais de 200 anos, chegamos, como conhecida, na Era da informação, e tal afirmativa ainda é muito atual. O mundo está cada vez mais informado porém é incapaz de dicernir entre duas ideias, seja distintas ou convergentes, o que, por diversas vezes, vejo pérpetuar mentiras, ou como chamamos, pós verdades, elementos que partem de pressupostos verdadeiros, porém manipulados, deixando que emoções e opniões pessoais, se tornem maiores do que o fato em si. Ai esta a incapacidade de dicernir – ou falta de instrução!

Na idade média, a escolástica, influenciadas pela dialética socrática, os discípulos eram ensinados a assegurar-se que compreendiam perfeitamente bem as próprias opiniões e as opiniões contrárias as suas, os mestres faziam com que os alunos correlacionassem opniões contrárias, fundamentando e refutando umas a outras. Assim, poderiam saber corretamente a origem de suas opiniões, quais as consequências lógicas e onde elas poderiam culminar. Tal prática parece ser desconhecida da grande massa, levando a uma polarização destrutiva, que mais visam um empate de oposições do que uma convergência para um lugar menos conflituoso.



O pensamento brasileiro é Marxista, ou seja, o brasileiro foi ensinado a pensar segundo os critérios do Materialismo Dialético e Histórico (veja no final do texto). Assim, pensar por outras perspectivas torna-se uma guerra, seja interna – não consegue expor ideias sem tais critérios marxistas, ou externa – com aqueles que rejeitaram o marxismo porém não o compreenderam, e, tão pouco sabem, sobre aquilo que defendem, simplesmente se polarizam!

Para identificar o pensamento com viés Marxista colocarei um exemplo antes de prosseguir. Já que o melhor argumento daqueles que dizem que não há doutrinação nas escolas é que os alunos saem das escolas sem ao menos saber explicar o que é Materialismo dialético e Histórico, o que é verdade, porém isso não significa que a maneira, ou os critérios, para chegar a determinadas opiniões não sejam Marxistas.

Vejamos, pergunte a qualquer pessoa se ela acredita que as cotas são importantes, terá imediatamente, da grande maioria das pessoas, uma resposta positiva, depois pergunte os motivos, chegará mais ou menos ao arguemento de “dívida histórica” e não saberá nada para além disso. Ou seja, não compreende a própria opinião! E, ainda, usou o Materialismo dialético e Histórico de Marx. As pessoas não sabem de onde vieram as próprias ideias, sabem apenas que as ideias estão na sua cabeça, fazendo sentido ou não. Estou cansado de ver isso seja de alunos, seja de professores.

O sujeiro pode ser muito bem informado – típico da nossa Era! Porém pode passar a vida toda sob uma perspectiva marxista e nem ao menos perceper, idem para reacionários! Sinceramente, não vejo problema em pensar o mundo de qualquer que seja a posicão, o que realmente me espanta é a incapacidade de compreender, tanto as posições contrárias como os próprios posicionamentos, como faziam nas escolas escolásticas. Tal prática é um exercício filosófico, também conhecido como ceticismo, mas não é  tão complexo assim, inclusive, leva a ser mais humilde, quando se descobre que é impossível ter certeza de tudo.



John Stuart Mill (1806 – 1873) acreditava que a liberdade tinha um importante papel dentro das sociedades, se alguém é capaz de contar uma mentira, isso é útil, já que podem ser desmascarados, então, podemos chegar as verdades desmascarando as mentiras e os mentirosos. Porém, para desmascarar os mentiroso da pós verdade é necessário mais do que informação, é necessário instrução. Há muita informação porém sem conteúdo instrutivo, o que leva a algo vago que facilmente pende para a polarizações e opiniões baseadas em sentimentalismo.

SEM MEIA CULPA. Como já disse algumas vezes por aqui, acredito que sair da menoridade intelectual é um trabalho pessoal que depende única e exclusivamente de cada indivíduo, o que torna toda mentira midiática também responsabilidade daqueles que não instruíram a si mesmo e, assim, acabam por perpetuar mentiras, já que foram incapazes de discernir as mentiras para conseguir desmascará-las.



LIBERDADE E A ORIGEM DA VIOLÊNCIA REVOLUCIONÁRIA em Karl Marx

Esta violência têm origens no método materialista dialético na história, tendo em vista que o controle dos meus de produção não poderia ser espontâneo. Tal violência é inspirada nos jacobinos porém negando seu viés republicano, tornando assim a violência o elemento primordial da luta de classes…



KARL MARX, LIBERDADE E A ORIGEM DA VIOLÊNCIA REVOLUCIONÁRIA. Como em todos os casos, Marx não foge à regra, define liberdade segundo suas convicções políticas e ideológicas. Para György Lukács (1885 – 1971), influente marxista do século XX, a definição nasce de sua admiração pelo jacobinismo ou democratismo radial. O jovem Marx entre 1840 – 1845 esta em transição de um democrata para o comunismo revolucionário. Desta forma há uma forte influência sobre sua concepção de liberdade, com uma definição partindo do jacobinismo se aprofundando em comunismo revolucionário. Então, é impossivel separar o conceito de liberdade de Marx de sua forma/definição de revolução, já que, seja por desagrado com uma burguesia ou com, segundo o próprio Marx, uma revolução insuficiente com o jacobinismo, a liberdade humana passa pela revolução, e o sujeito (proletário) é o agente da sua própria liberdade – a revolução. Aparentemente, até 1842 libertário e admirador da revolução francesa, acaba por identificar-se com o radicalismo. Em 1843 desiludido com a burguesia liberal alemã rompe com a buguesia radical.

Com essas características, a liberdade para Marx não são as mesmas dos dicursos de John Locke (1632 -1704) e de John Stuart Mill (1806 – 1873), em direção da propriedade privada, pois são contrários aos verdadeiros interesses da ideologia comunista, desta forma Marx precisa renovar a ideia de Alienação.



O Fenômeno da Alienação. Em “Teses Sobre Feuerbach” Marx acredita que o ser humano entra em processo de autodestruição e aliena-se a si mesmo projetando um deus imaginário. O que chama “ópio do povo” é a fuga humana, o homem oprimido pelo meio social busca no imaginário da fé um conforto. Então, em “O Capital” torna explícito sua ideia de trabalho. O trabalho ao invés de realizar existencialmente o homem torna-o alienado de si mesmo, já que Marx considera o trabalho externo ao homem, ou seja, não pertence ao seu ser. Assim, o homem não se afirma no trabalho mas precisa renegar a si mesmo para executar a tarefa que esta imposta, desta forma fica infeliz definhando seu próprio corpo por que é incapaz de nutrir seu intelecto, destruindo a si mesmo. Por isso, somente fora do trabalho o homem se sente pleno, porque encontra a si mesmo. Isso o leva a crer que, o trabalho nunca é voluntário, mas uma opressão, sempre será um trabalho forçado. Isto posto, o trabalho torna o operário cada vez mais alienado e pobre na mesma medida que produz para o capitalista, seu patrão.

Retornando. Apesar de Marx falar de liberdade sobre diversos aspectos, Marx não conceitua liberdade. Para Michael Löwy (1938), isso se deve ao fato de Marx ser influenciado por Ludwig Feuerbach (1804 – 1872), e justifica sua afirmação com as palavras do próprio Marx: “Assim que o relâmpago do pensamento tiver penetrado no fundo desse ingênuo terreno popular, os alemães se emanciparão (…) A filosofia é a cabeça dessa emancipação (do homem); o proletariado, o coração”, isso quer dizer que Marx acreditava na filosofia como uma função de emancipação do homem, na superação da dualidade entre razão e paixão, intelecto e massa.

Portanto, para definir liberdade Marx pensa nas revoltas de trabalhadores, e no contato com os operários comunistas na França, ou seja, precisa do conteúdo social. O sujeito proletário precisa se reencontrar com a finalidade trabalho, já que Marx considera o trabalho externo ao homem, desse modo, opressor.

Então, é necessário que o sujeito social da liberdade se transforme em um revolucionário ativo, somente assim o proletário reencontrará sua personalidade, suas potencialidades criativas em uma humanidade livre em capacidades. Para Michael Löwy isso quer dizer uma auto libertação e auto educação.



Assim, unindo a teoria dialética e lutas de classes fica claro, para Marx a violência é o caminho histórico para libertação quando diz: “(…) as armas da crítica não podem de fato substituir a crítica das armas; a força material deve ser deposta por força material“, desta forma, Marx sai do jacobinismo em direção a revolução pensado que liberdade só será possível se houver igualdade no trabalho. Em 1848 em “Manifesto do Partido Comunista” Marx e Engels escreve “Os comunistas se recusam a dissimular suas opiniões e seus projetos. Proclamam abertamente que seus objetivos não podem ser alcançados senão pela derrubada violenta de toda ordem social passada. Que as classes dominantes tremam diante de uma revolução comunista! Os proletários nada têm a perder a não ser suas cadeias. Têm um mundo a ganhar. Proletários de todos os países, uni-vos!“.

Para Marx não existe liberdade sem revolução, e a violência é uma condição da revolução. Esta violência têm origens no método materialista dialético na história, tendo em vista que o controle dos meios de produção não poderia ser espontâneo. Tal violência é inspirada nos jacobinos porém negando seu viés republicano, tornando assim a violência o elemento primordial da luta de classes para a conquista do poder político e produtivo. A revolução comunista a partir do materialismo dialético é orientada para abolição da propriedade privada.



PARA ENTENDER O CONTEXTO. Os Fundamentos do Materialismo Dialético e Histórico. É materialismo por que o conteúdo é material, no sentido de fenômenos naturais, e dialético porque se apoia no conteúdo dialético de Georg Wilhelm Friedrich Hegel (1770 – 1831), no sentido de evolução dos fenômenos sociais, e histórico por que aplica o materialismo na dialética, ou seja, fenômenos materiais aplicados na evolução dos fatos sociais no desenrolar do tempo.

É necessário lembra também que tal tese Hegeliana foi amplamente discutida e questionada por diversos autores.

Deixo a reflexão de Battista Modin (1926) de opnião oposta ao sistema Hegeliano “O pensamento não põe nem cria a realidade. Ele a constata. A interioridade idealista, reduzindo a realidade ao pensamento” em ” Curso de Filosofia” p. 18 Ed. Paulus.