Ética em Nietzsche, A Transvaloração de Todos os Valores

Entre os mais ácidos críticos da cultura ocidental, Nietzsche se destaca trazendo, para filosofia ética, uma proposta radical a “Transvaloração de Todos os Valores.

Friedrich Wilhelm Nietzsche (1844-1900), filósofo, filólogo, crítico cultural, poeta e compositor prussiano, onde hoje é a Alemanha. Filho de pastor luterano foi marcado por uma rígida educação religiosa protestante. É um dos críticos mais ácidos da moral tradicional desde a filosofia grega antiga à filosofia cristã. Ficou conhecido, especialmente pelo radicalismo de propor a “Transvaloração de Todos os Valores” em Ecce Homo de 1888, buscando cortar laços não somente com a filosofia moral tradicional Judaico-cristã, mas, também, com a filosofia grega desde Sócrates, que é representativo no racionalismo e de uma visão unilateral que, segundo Nietzsche, prevaleceu na cultura ocidental.

O próprio Nietzsche define seu pensamento como uma “crítica a modernidade” em Além do Bem e do Mal. Especialmente, no campo da ética, procura mostrar que ela (a ética), não se fundamenta na razão. Para Nietzsche, a ética cristã se caracteriza pela “moral de rebanho” onde os indivíduos são levados pela maioria e seguem os ensinamentos da moral tradicional de maneira não crítica.

Ainda há outro conceito importante sobre moral em Nietzsche o “homem ressentido”, que é aquele que assume a culpa e o pecado como sendo próprio da sua natureza, dessa forma, reprime seus impulsos vitais, sua vontade, e sua criatividade em nome da submissão às autoridades como religiões, o Estado e as instituições em geral. Essa é, para o filósofo, a moral dos fracos, que consegue impor aos fortes, por meio destes recursos, o “remorso” colocado, na cabeça de todos os indivíduos, pela tradição.

Desta maneira, Nietzsche, vai em direção à valores que visam a afirmar a vida, que dê aos seres humanos um impulso para outra direção, ou seja, a superação de suas limitações por meio do encorajamento da Vontade, à sensibilidade e à criatividade.

Em Além do Bem e do Mal de 1886, Nietzsche, questiona a dicotomia entre o Bem e o Mal à qual é baseado toda a moral tradicional, relacionando-a a verdadeiro/falso onde está assentada a tradição filosófica do conhecimento. E, até caracteriza como “preconceito dos filósofos”.

Para Nietzsche, conceitos tratados como objetivos e derivados da razão universal são, na verdade, fruto do sentimentos e instintos humanos, resultantes da história, da cultura e da educação. Assim, é necessário libertar os homens dessas amarras do preconceito dos valores tradicionais e, então, reafirmar a vida, redescobrir valores que permitam aos homens o pleno desenvolvimento do que há de mais nobre na natureza, para que, assim, seja capaz de superar a si mesmo e seguir em direção do “homem do futuro”.

Há, ainda, em Além do Bem e do Mal, a contribuição à história da Moral, onde Nietzsche crítica a tentativa dos filósofos de fundamentar a moral e de criar uma ciência da moral, sem ao menos se perguntarem qual o sentido da moral, ou seja, sem problematizá-la. É neste ponto onde Nietzsche propõe uma perspectiva histórica da moral, mostrando a necessidade de comparar as diversas visões sobre a moral que existem.

Em Genealogia da Moral de 1887, Nietzsche segue a ideia do livro anterior, supracitado, aprofundando ainda mais sua crítica através do método genealógico, assim, o filósofo, deseja mostrar que os conceitos e valores tradicionais não são pactuados objetivamente e nem são universais, ou seja, têm momentos históricos e culturas específicas que o determina. Desde modo, servem a interesses e propósitos que, no decorrer da história ou da tradição, acabam por desmascarar a aparente objetividade dos valores, como, por exemplo a “moral de rebanho” da cultura judaico-cristã, que determinam valores como compaixão e submissão aos fortes como forma de dominá-los. Não se trata de uma análise histórica, o método nietzschiano procura mostrar, através da análise crítica, conjunturas e elementos periféricos da tradição e seu encadeamento de formação.

Em Ecce Homo de 1888, Nietzsche define seu livro Genealogia da Moral como sendo três dissertações.

A Primeira dissertação é a psicologia do cristianismo, nas palavras do filósofo:

“(…) nascido do espírito do ressentimento e não, como se supõe, do Espírito, um movimento contrário em sua essência, uma grande rebelião contra a dominação dos valores nobres”.

A Segunda dissertação trata a “Psicologia da Consciência” não de forma que seja “voz de Deus no homem”, mas o instinto de crueldade que se volta para dentro do homem quando não se pode externá-lo. Na voz do filósofo:

“A crueldade é revelada, pela primeira vez, como um dos mais antigos e mais indispensáveis elementos na fundação da cultura.”

A Terceira dissertação é uma resposta à questão sobre a origem terrível do poder do ideal ascético – no sentido daquele que se volta a vida religiosa, ou espiritual.

Nessas três dissertações Nietzsche acreditava ter a chave para a “Transvaloração de todos os valores”. Segundo o filósofo:

“Trata-se de três ‘aberturas’ psicológicas decisivas que precedem a transvaloração de todos os valores.”

Nietzsche

Ética em Søren Aabye Kierkegaard, Abraão, um Conflito entre a Fé e a Ética

Um dos mais originais filósofos do século XIX, inicia o existencialismo explorando os conflitos e paradoxos da situações-limite entre fé e ética.

Søren Aabye Kierkegaard (1813 – 1855), filósofo dinamarquês. Foi um dos mais originais e importantes pensadores do século XIX. Considerado o filósofo que inicia o existencialismo.

Kierkegaard, em sua obra aborda temas filosóficos, teológicos e literários, em um estilo marcado fortemente pelo cunho pessoal. Utilizando, frequentemente alter ego e heterônimos para representar as diversas perspectivas da realidade e da existência humana, apresentando, inclusive, estilos distintos. Entre os mais conhecidos estão: Victor Eremita, Constantino Constantius, Johannes de Silentio e Johannes Clímaco.

Visceralmente, marcado por uma severa educação luterana, filho de pastor protestante, o filósofo, sempre manteve uma conflituosa relação com a igreja oficial da Dinamarca.

Graduou-se em teologia na Universidade de Copenhagen em 1841, defendendo a tese sobre o Conceito de Ironia em Sócrates. Em seguida, em Berlim, estudou filosofia, onde teve contato com Friedrich Schelling (1775 – 1854).

Sempre de forma autobiográfica, sua obra é bastante assimétrica, evidenciando angustia, principalmente sobre as questões religiosas. Criticou o hegelianismo, muito difundido na Dinamarca, naquela época, questionando o universalismo e o caráter abstrato e especulativo dessa filosofia. Kierkegaard, ao contrário, buscava valorizar a subjetividade e a experiência individual do encontro com o absurdo do mundo diante do silêncio de Deus, que força o indivíduo a buscar sentido para a própria existência.

Ou seja, é a irracionalidade da experiência com o real junto a impossibilidade de decisões racionais e de podermos justificar nossas ações de maneira ética.

Dessa forma, para Kierkegaard, as questões éticas estão vinculadas a impossibilidade de certeza das escolhas, assim, não poder justificá-las. Para isso, então, é necessário um “salto no escuro”, isto é, é necessário fé, que está além da racionalidade, da justificação ou até mesmo da compreensão.

Em Temor e Tremor de 1843, o filósofo faz referência a epístola de são Paulo aos filipenses, 2 -12, assinando com pseudônimo de Johannes de Silentio, que, por sua vez, é baseado em um personagem do conto dos irmãos Grimm. No texto, Kierkegaard, retoma a história do sacrifício de Isaac, gênesis 22, no antigo testamente, discutindo a questão do supremo sacrifício sem esperança de recompensa, explicações ou justificativas.

Discute, assim, situações-limite, onde princípios éticos – como no caso de Abraão de proteger seu filho – são colocados à prova por princípios mais elevados, isto é, a ordem divina, e, pela fé, que deve ser seguida, mesmo sem conseguir compreendê-la. O conflito está então entre a ética e a fé, ou seja, entre aquilo que é possível compreender e aquilo que não é possível compreender, mas, simplesmente, crer.

O que o filósofo deseja explorar é os conflitos e paradoxos das situações-limite, como a de Abraão, onde o ser humano é colocado à prova sem qualquer explicação, o que causa “aniquilamento” para usar as palavras do próprio autor:

“Quando me ponho a refletir sobre Abraão, sinto-me aniquilado”.

Immanuel Kant em A religião no Limite da razão de 1793, considera, em oposição a atitude de Abraão, que uma pessoa que chega a conclusão que Deus ordenou agir de forma não ética deve estar errada. Porém, em Kierkegaard, Abraão vive um conflito ético entre o dever com seu filho ou o dever com Deus, que no caso, prevalece. Para o filósofo dinamarquês, Abraão não negou a ética ao aceitar fazer o sacrifício de Isaac, mas submete a ética a uma “Suspensão Teleológica” – isto é, a ética esta suspensa enquanto a fé estiver envolvida.

Para Kierkegaard, o silêncio de Abraão é por conta da inexplicável condição em que se encontra, desta forma, seria inútil tentar fazer os outros compreenderem o seu conflito interior. Nas palavras do filósofo:

“quando a esperança se torna absurda, Abraão crê”.

Ou seja, é a fé de Abraão, no final, que salva Isaac, quando deus envia um anjo para substituir Isaac por um cordeiro.

Abraão vive uma experiência individual e radical, onde não encontra explicações nem respostas cabíveis nos princípios universais e abstratos da ética.

Kierkegaard, Søren Aabye

 

Ética em Immanuel Kant

Immanuel Kant é, entre os modernos filósofos da ética, provavelmente, o mais influente deles. Com uma ética de princípios e seu racionalismo conquistou muitos seguidores no decorrer dos séculos seguintes

O filósofo prussiano, Immanuel Kant (1724 – 1804), está entre os pensadores da ética mais influentes do período moderno. Com uma ética de princípios e seu racionalismo, conquistou importantes seguidores no pensamento contemporâneo, pensamento, este, que se desenvolve através da influência da obra kantiana.

A Crítica da Razão Pura de 1781 inicia a fase crítica da obra do filósofo à qual é possível notar na sequência em Crítica da Razão Prática de 1788, sua obra mais importante no campo da ética. Immanuel Kant, têm como objetivo central a investigação da Razão no sentido Teórico e Prático. Dessa forma, passa a examinar as condições em que a razão funciona, como ela opera e, também, qual seu objetivo.

No ponto de vista TEÓRICO, o filósofo, refere-se ao conhecimento legítimo da realidade apoiado nas distinções entre entendimento e conhecimento. Já, na PRÁTICA, trata-se da livre escolha dos seres racionais, que podem ou não obedecer à lei moral, que é, para Kant, a consequência da Razão Pura, no sentido prático. Desta forma, age eticamente aquele que é competente em se autodeterminar. Ou seja, a autonomia da razão é um pressuposto fundamental da ética kantiana.

A Fundamentação da Metafísica dos Costumes de 1785, é a primeira, entre as três principais obras do filósofo sobre ética. Obra que estabelece as bases que Immanuel Kant usará na obra posterior, supracitada, Crítica da Razão Prática de 1788, e, então posteriormente a conclusão com Metafísica do Costumes de 1797-8.

Mesmo que no prefácio de Metafísica dos Costumes Kant afirme que deseja:

“(…) formular uma filosofia moral pura, completamente depurada de tudo que fosse apenas empírico e que pertencesse ao campo da antropologia”

O filósofo também se atentou para as questões morais concretas e de aplicação prática dos princípios éticos.

Textos menos conhecidos como a Carta a Maria Von Herbert de 1792 e Sobre a Relação entre teoria e Prática na Moral em Geral de 1793, assim como outros, publicados após sua morte e incluídos no Opus Postumum, são valorizados por diversos interpretes contemporâneos, principalmente por apresentarem a preocupação de Kant com questões de ordem prática e de natureza concreta. Ou seja, levam em consideração as emoções e os sentimentos da perspectiva da ética, indo além do racionalismo da Crítica da Razão Pura.

Assim, é possível notar que ética é parte fundamental na filosofia kantiana, o que é demonstrado nas formulações dos problemas centrais propostos como: “O Que Posso Saber?”, “O Que Devo Fazer?”, “O Que é Lícito Esperar?” e “O Que é o Homem?”. Com isto posto, O filósofo nos apresenta a seguinte conclusão:

“À primeira questão, responde a metafísica; à segunda, a moral; à terceira, a religião; e à quarta, a antropologia. Mas, no fundo, poderíamos atribuir todas à antropologia porque as três primeiras questões remetem à última.”

O Imperativo Categórico, famoso princípio Kantiano:

“age somente de acordo com aquela máxima pela qual possas ao mesmo tempo querer que ela se torne uma lei universal”.

Exposto em Fundamentação da Metafísica dos Costumes, determina que a ação moral é aquela que pode ser universalizada. Isto é, de acordo com o texto, os deveres e princípios éticos não aceitam exceção. O Imperativo mostra o que deve ser feito por que deriva da própria razão. O mesmo conceito de Imperativo Categórico ainda é revisitado, pelo filósofo, na Analítica da Crítica da Razão Pura.

Em O Que é Esclarecimento? de 1784, Immanuel Kant, tenta responder a um pastor que o havia questionado a respeito do conceito de esclarecimento ou sobre iluminismo. Desta forma, o filósofo elabora a discussão em torno da autonomia do indivíduo no exercício da própria razão, pois somente desta maneira que é possível ter Maturidade, segundo o conceito kantiano, ou seja, somente assim que se pode caracterizar liberdade.

Para Immanuel Kant:

“O Esclarecimento é a saída do homem da condição de menoridade autoimposta. Menoridade é a incapacidade de servir-se de seu entendimento sem a orientação de um outro.”

Depois segue:

“Esta menoridade é autoimposta quando a causa da mesma reside na carência não de entendimento, mas de decisão e coragem em fazer uso de seu próprio entendimento sem a orientação alheia. Sapere aude! Tenha coragem em servir-te de teu próprio entendimento! Este é o mote do Esclarecimento.”

Immanuel Kant

 

Ética de David Hume em Tratado da Natureza Humana

A Razão, para Hume, é inativa, ou seja, a mente está sujeita as percepções e não tem influência sobre as propensões naturais dos Homens.

David Hume, nascido na cidade de Edimburgo, Escócia em 1711, mesma cidade onde morreu em 1776. Em Vida, David Hume, foi conhecido e influente como filósofo e historiador. Famoso, principalmente, por seu Empirismo Radical, posição que o tornava cético.

Alguns pontos importantes, a respeito da filosofia de David Hume, são suas críticas a concepção metafísica de causalidade e ao conceito racionalista de “eu”. Pontos estes, tomados como afronta a tradição filosófica.

Porém, as consequências do ceticismo de Hume, advém de sua adesão a soluções naturalista, isto é, proveniente da Natureza Humana, seus impulsos e necessidades, lugar onde estão, para David Hume, nossas crenças básicas e a forma como agimos.

O TRATADO DA NATUREZA HUMANA – Publicado em 1737 é considerada a obra mais importante de David Hume. Com pouco aceitação, o próprio filósofo se queixa em “My Own Life” em 1776, sua autobiografia. Desta forma, resolve escrever o “Abstract” 1740, retomando o tema da causalidade, então, posteriormente, escreve “A Carta a Um Cavaleiro” em 1745 tentando refutar as objeções feitas ao seu Tratado. Assim, em 1748 escrever a “Investigação Sobre o Entendimento Humano”, uma restruturação da primeira parte do “Tratado da Natureza Humana”.

AS DISTINÇÕES MORAIS NÃO SÃO DERIVADAS DA RAZÃO – Segundo o filósofo, as Ações Humanas são baseadas nas paixões, isto é, nos impulsos e sentimentos. Desta maneira, para Hume, a Ação Moral depende de associações marcadas por sentimentos humanos, como, por exemplo, a simpatia, a benevolência e a compaixão. A razão, em David Hume, trabalha nas relações entre ideia ou nas questões empíricas, ou seja, a razão por si só, é insuficiente para explicar e fundamentar um caráter moral das ações.

Como o própria autor afirma:

“Como a moral, portanto, tem influência sobre as ações e os afetos, não pode ser derivada da razão; isso porque a razão por si só, como já provamos, jamais pode ter tal influência. A moral excita paixões e produz ou evita ações. A razão sozinha é inteiramente impotente nesse particular. As regras da moralidade, portanto, não são deduções de nossa razão.”.

Assim, os seres humanos, agem por que desejam algo e isso está mais relacionado com os sentimentos do que com o raciocínio. O que leva a uma outra afirmativa do autor:

“a razão é, ou deveria ser, apenas a escrava das paixões”.

E, depois, pelo mesmo motivo escreve:

“ (…) uma vez que o vício e a virtude não são descobertos apenas por meio da razão, deve ser graças a um sentimento que estabelecemos a diferença”.

No mesmo texto supracitado “As Distinções (…)” é examinada a moral do ponto de vista prática. Hume, analisa as diferenças entre vícios e virtudes e um confronto entre Juízo Moral com os juízos, que podem ser, Falso ou verdadeiros.

“A verdade e a falsidade consistem na concordância ou discordância com as relações reais das ideias, ou com a existência real das coisas. Portanto, tudo que não seja suscetível a essa concordância ou discordância é incapaz de ser verdadeiro ou falso e nunca pode ser objeto de nossa razão”.

E, então, segue em conformidade com o trecho anterior:

“Os que afirmam que a virtude nada mais é que a conformidade com a razão; que há adequações e inadequações eternas das coisas e que estas são as mesmas para todo ser racional que as considera; que os critérios imutáveis de certo e errado impõem uma obrigação, não só às criaturas humanas, mas ao próprio Deus — todos esses sistemas concordam que a moralidade, como a verdade, é discernida meramente por ideias, e pela justaposição e comparação das mesmas. Portanto, para julgar esses sistemas precisamos apenas considerar se é possível, pela razão somente, distinguir entre o bem e o mal moral, ou se alguns outros princípios devem concorrer para nos permitir fazer essa distinção.”

David Hume, considera que, na mente, somente existe as percepções, assim, todas as ações seja ver, ouvir, julgar, amar, odiar e pensar estão sob esta denominação. Por isso, escreve que:

“Se a moralidade não tivesse naturalmente influência alguma sobre as paixões e ações humanas, seria inútil fazer tantos esforços para inculcá-la; e nada seria mais infrutífero que aquela multidão de regras e preceitos abundantes em todos os moralistas.

Razão, para Hume, é inativa, o que o leva a crer que a razão não tem influência sobre as propensões naturais, desta maneira, as distinções morais não são fruto da razão segundo o autor:

“Ações podem ser louváveis ou condenáveis, mas não podem ser racionais — louvável e condenável, portanto, não é o mesmo que racional ou irracional.”

Outro trecho:

“(…) razão. Ele reside em vós, não no objeto. Assim, quando declarais viciosa alguma ação ou caráter, nada quereis dizer senão que, a partir da constituição de vossa natureza, tendes uma sensação ou sentimento de culpa ao contemplá-la. Vício e virtude, portanto, podem ser comparados a sons, cores, calor e frio, os quais, segundo a filosofia moderna, não são qualidades nos objetos, mas percepções na mente.”.

David Hume

 

Ética de Spinoza em Ética, demonstrada à maneira dos geômetras

Spinoza, conhecido como um dos filósofo mais originais do seu tempo, escreveu sobre Ética de maneira peculiar e criativa articulando a Metafísica, o Conhecimento e a Antropologia Filosófica e Moral.

Nascido em Amsterdam e proveniente de uma família judaica com origem portuguesa, Baruch, ou Benedito Spinoza (1632 – 1677) é conhecido como um dos filósofos mais originais de seu tempo.

Baruch Spinoza escreveu, originalmente em latim, a “Ética, demonstrada à maneira dos geômetras” entre 1661 e 1673 foi uma obra póstuma. Esta, não é simplesmente, ou somente, uma obra a respeito de ética, mas uma obra sobre metafísica que, partindo da ontologia, desenvolve um tratado da Natureza Humana e o fim último do homem, a beatitude. O filósofo, escreve de modo articulado, sobre metafísica, o Conhecimento, a Antropologia filosófica e moral.

ÉTICA, DEMONSTRADA À MANEIRA DOS GEÔMETRAS é escrita sob o more geometrico ou o método geométrico, influencia de Euclides e sua geometria, conhecida, em seu tempo, por ser um modelo de ciência do pensamento exato. Dessa forma, e por isso, começa por definições e axiomas, formula proposições e demonstrações, ou seja, é uma obra extremamente sistemática, onde conceitos definidos são colocados com exatidão. As consequências das definições são tiradas de um método totalmente lógico. Cada parte do sistema de Spinoza interage com a outra parte o que leva a necessidade de compreendê-lo como um todo.

A parte I ou o Livro I “Sobre Deus”, o filósofo discorre sobre questões metafísicas, isto é, Deus, a Substância, seus modos e atributos. Observe que o Deus de Spinoza não é o Deus criador e transcendente das religiões, mas um princípio metafísico que é a própria realidade, por isso a frase: Deus sive natura, ou seja, Deus ou Natureza. Deus é, para Spinoza, uma substância infinita e causa primeira.

A parte II ou o Livro II é “Sobre a Natureza e a Origem da Alma (mentis)” onde Spinoza explora o tema do Conhecimento, relacionando-o a questão da alma e o corpo e a possibilidade de conhecer a realidade.

A parte III ou o Livro III, “Sobre a Natureza e a Origem das Afecções” é onde começa as primeiras definições a respeita da ética.

Danilo Marcondes em “Textos Básicos de Ética: De Platão à Foucault” escreve sobre o que são as afecções em Spinoza:

 “(…) para Spinoza as afecções são formas de pensamento (Livro III, Definição III), podem ser alteradas pela razão. Podemos igualmente analisá-las e descobrir quais as afecções que são boas e quais são más, no sentido das definições (…). As boas afecções são aquelas que contribuem para o desenvolvimento da natureza humana, que aumentam a potência do ser humano.”

A parte IV ou Livro IV “Sobre a Natureza Humana ou Sobre a Força das Afecções” segue o raciocínio e desenvolve as consequências éticas de suas concepções da Natureza Humana sob as problemáticas da Liberdade, do Auto Controle e seus conceitos de Bem Mal.

Para o próprio Spinoza é:

“I. Por bem, entenderei o que sabemos com certeza ser-nos útil.”

“II. E por mal, o que sabemos com certeza impedir que detenhamos um bem.”

A parte V ou Livro V é “Sobre as Potências do Intelecto, ou Sobre a Liberdade Humana” onde Spinoza opta por defender uma ética racionalista. E, no mesmo livro, o filósofo demostra sua concepção de Felicidade, que é o “Amor Intelectual de Deus” que Spinoza entende como o lugar do Indivíduo no Universo.

Potência e Virtude, para Spinoza é o Mesmo segundo definição do próprio autor:

“VIII. Entendo que virtude e potência são a mesma coisa, isto é (pela Prop. 7), a virtude, na medida em que diz respeito ao homem, é a essência mesma ou natureza dele, pois lhe confere o poder de produzir certos efeitos que podem ser compreendidos como as únicas leis de sua natureza.”

A virtude, em Spinoza, é tudo o que ajuda os seres humanos a preservarem seu Ser, isto é, a definição de Autopreservação, e para isto é necessário agir de acordo com a Natureza, ou seja, agir movido pela razão.

Spinoza define assim:

“Quanto mais alguém procura o que lhe é útil, isto é, conservar o seu ser, e tem poder para tal, mais é dotado de virtude; ocorre o contrário quando alguém desdenha o que lhe é útil, isto é, conservar seu ser, e nisto é impotente”

Referencias:

Marcondes, Danilo. Textos Básicos de Ética: De Platão à Foucault.

Spinoza

 

Ética em René Descartes

Mesmo que a filosofia cartesiana, em grande parte, seja sobre epistemologia, é possível pinçar alguns textos sobre outros assuntos, como, nesse caso, ÉTICA!

René Descartes (1596 – 1650) – filósofo francês tido como um dos fundadores da filosofia moderna, e, principalmente, como defensor da ciência moderna fundada por Nicolau Copérnico (1473 – 1543) e expandia por Johannes Kepler (1571 – 1630) e Galileu Galilei (1564 – 1642). Junto a isso, críticas a tradição filosófica, em especial a escolástica medieval.

A filosofia de cartesiana têm como condição essencial a fundamentação de um novo método científico que seja capaz de se tornar o suporte para a ciência moderna, ou seja, a obra de Descartes é, quase que totalmente, voltada as questões epistemológicas – Teoria do conhecimento científico.

Assim, o filósofo francês, escreveu pouco sobre outros temas do pensamento filosófico como ética, estética, ou filosofia política. Para René Descartes os outros assuntos da filosofia, dependiam, diretamente, das soluções a Respeito do Conhecimento e de uma fundamentação de um novo método científico, então, somente a partir desse novo método poderíamos desenvolver um novo sistema filosófico e científico.

Mesmo assim, Descartes, não deixou totalmente à parte as questões éticas e a Natureza humana. Em seu “Tratado do Homem”, publicado após sua morte em 1664 – que deveria unir-se ao “Tratado do Mundo” – formulou uma ciência do ser humano. O próprio Descartes, na parte VI, menciona seu interesse em medicina e no conhecimento da Natureza Humana.

A Moral Provisória de Descartes – na parte III de DISCURSO DO MÉTODO, o filósofo demostra as regras para a Moral provisória – da mesma forma que demonstrou os princípios do método científico na parte II – ainda que uma ciência da moral necessitasse se amparar no conhecimento da natureza humana para determinar as regras do bom agir ou diferenciar Certo de Errado e o Bem e o Mal e, enfim, proporcionar os verdadeiros fins da natureza humana, Descartes, acreditava que não podíamos esperar a fundamentação da ciência do agir. Assim, é necessário regras para uma Moral Provisória que sirva até que que a ciência da moral seja definida e definitiva.

A Distinção entre o Certo e o Errado. Em “As Meditações Metafísicas” – sua principal obra sobre os assuntos que contornavam o debate em sua época – de 1641, Descartes dedicou-se as questões sobre metafísica e a existência de Deus, a imortalidade da alma e a sua relação com o corpo. Neste trabalho, busca mostrar que a nova filosofia que defende não é conflitante com a tradição filosófica.

Assim, na meditação IV, Descartes escreve sobre o problema do Erro, e caracteriza não como efeito das faculdades intelectuais, mas como mau uso da Vontade, ou seja, quando a Vontade esta apoiada em ideias que não são nítidas e inteligíveis. É necessário, então, que a Vontade seja guiada pela razão e não pela paixão. Somente dessa maneira será possível diferenciar o Certo do Errado e o Bem e o Mal.

A vontade e as Paixões da Alma. A ultima obra publicada pelo filósofo francês em 1649. Inicialmente, é analisada a fisiologia humana, de um enfoque mecanicista, ou seja, o corpo humano lhe parece uma máquina. É, então, sob essa ótica que, Descartes, concebe sua moral, e escreve no Art. 48:

 

“Em que conhecemos a força ou a fraqueza das almas, e qual é o mal dos mais fracos. Ora, é pelo sucesso desses combates que cada um pode conhecer a força ou a fraqueza de sua alma, pois aqueles em quem naturalmente a vontade pode vencer com mais facilidade as paixões e interromper os movimentos do corpo que as acompanham têm provavelmente as almas mais fortes; mas há outros que não conseguem experimentar a força de sua alma, uma vez que nunca combatem suas vontades com as próprias armas, mas apenas com as fornecidas por certas paixões com a finalidade de resistir a algumas outras. O que chamo de “próprias armas” são julgamentos firmes e determinados, referentes ao conhecimento do bem e do mal, segundo os quais ele resolveu conduzir as ações de sua vida; e as almas mais fracas de todas são as cuja vontade não se determina assim a seguir certos julgamentos e deixa-se levar constantemente pelas paixões presentes, as quais, não raro contrárias umas às outras, arrastam a vontade sucessivamente para o partido delas, e, usando-a para lutar contra si própria, colocam a alma no estado mais deplorável que possa haver. Assim, enquanto o medo representa a morte como um mal extremo e só pode ser evitado com a fuga, a ambição, por outro lado, significa a infâmia dessa fuga como um mal pior que a morte; essas duas paixões agitam diferentemente a vontade, a qual, ao obedecer ora a uma, ora a outra, opõe-se continuamente a si mesma, e assim torna a alma escrava e infeliz.”

Resumidamente, para Danilo Marcondes (1957), em “Textos Básicos de Ética: De Platão à Foucault”, na edição Kindle escreve:

 

“Descartes fundamenta a sua ética no bom uso, isto é, na utilização racional, do livre-arbítrio e na generosidade, entendida como a decisão de usar corretamente a liberdade, que é a mais elevada das virtudes. Ele aponta para a importância de não se permitir que a vontade fique sujeita às paixões, o que a impediria de nos fazer agir de forma equilibrada. É necessário, assim, que nossas atitudes se baseiem no conhecimento da verdade para que possam ser justas.”

Mesmo assim, isso não significa que as paixões deverão ser simplesmente ignoradas, como o próprio Descarte esclarece no art. 212:

 

“Mas o principal uso da sabedoria está em nos ensinar a ser mestres de nossas paixões e a controlá-las com tal destreza que os males que elas possam causar sejam perfeitamente suportáveis e até mesmo tornem-se fonte de alegria.”

Leia Mais Sobre Ética:

Na Grécia Antiga:

A Origem da Ética 

A Ética em Platão

Ética de Aristóteles em Ética à Nicômaco

E a Ética na idade Média:

A ética de Santo Agostinho – Livre Arbítrio e Confissões

Ética de São Tomás de Aquino – em A Suma Teológica

René Descartes

Ética de São Tomás de Aquino em A Suma Teológica

Como Santo Agostinho, São Tomás de Aquino realiza uma leitura Cristã dos antigos filósofos gregos. Com ênfase em Aristóteles, São Tomás tornou-se, em sua época, o principal nome a demonstrar a compatibilidade da antiga filosofia grega com o cristianismo

Da mesma forma que Agostinho [1] havia feito 800 anos antes, são Tomás de Aquino (1225 – 1274) produz uma leitura cristã da filosofia Grega, com ênfase em Aristóteles [2]. Assim, Tomás de Aquino, tornou-se o principal nome, em sua época, a demonstrar a compatibilidade entre a ética aristotélica e o cristianismo. Com isso, criou condições para a leitura da filosofia de Aristóteles no final do século XIII que, sob diversas vertentes, perdurou até o final do século XV. E, ainda, é possível encontrar seguidores nos escolásticos da Era Moderna, sobre tudo em questões éticas.

São Tomás ao absorver o pensamento aristotélico sobre Virtude considerando a possibilidade de aperfeiçoamento da Natureza Humana cria um contraste entre a sua ética e a ética de santo Agostinho que, vigente até momento e  perpetuada por pensadores como Bernardo de Clairvaux (1091 – 1153), consideravam, o homem, um ser imperfeito e marcado pelo pecado original.

A VIRTUDE PARA SÃO TOMÁS DE AQUINO, não é o mesmo que para os antigos filósofos gregos – que a relacionavam aos valores da cidade [3] [4] com valores como Coragem, Amizade e Lealdade. Para Tomás de Aquino as Virtudes Teologais são as realmente importantes como a , a Esperança e a Caridade no sentido de amor ao próximo e a Deus. Tomás de Aquino, ainda, reinterpreta o conceito aristotélico de Felicidade transformando-o em Beatitude – visão beatífica de Deus somente possível pela Revelação e Graça Divina.

Outra diferença importante entre o filósofo grego Aristóteles e Tomás de Aquino é sobre o Pecado Original, conceito do filósofo cristão que é inexistente no pensador grego. Apesar das diferenças é possível constatar que Tomás de Aquino invoca constantemente os conceitos aristotélicos como por exemplo Ato/Potência, Finalidade (telos) e o Ente (ens).

A SUMA TEOLÓGICA DE SÃO TOMÁS DE AQUINO escrita, ao estilo de Suma Teológica Medieval, entre 1266 e 1274 que, apesar de ser uma obra inacabada, é o mais importante feito do autor. É uma síntese de caráter sistemático das questões centrais da sua concepção de filosofia e teologia.

A Suma é organizada por meio de respostas às principais questões das áreas tradicionais da filosofia, o Ser, o Conhecimento, e a Verdade e, também, as principais questões da teologia Deus, a Criação, a Graça Divina, os Sacramentos.

É importante notar que Tomás de Aquino utiliza-se tanto da autoridade da Bíblia como dos antigos filósofos gregos, em especial, é claro, Aristóteles.

São Tomás, escreveu também comentários sobre as obras de Aristóteles com destaque para o Corolário à ética a Nicômaco onde retoma questões de sua Suma Teológica.

O Mal Está nas Coisas? Ou A Natureza do Mal. na primeira parte da Suma, Tomás de Aquino analisa por que Deus sendo Bom pode ter criado o Mal, discutindo a tese Agostiniana onde o Mal é privação. Tomás de Aquino rejeita essa ideia e em seguido também a ideia de que o Mal é alguma coisa ou uma entidade passando a compreendê-lo como parte da natureza no sentido de corrupção das coisas que foram criadas por Deus coisas, essas, que podem ser perecíveis e imperfeitas.

Parte I da Suma Teológica “Sobre o Deus Criador” São Tomás escreve sobre A Natureza do Mal:

 

“Respondo que, segundo o que foi dito acima, a perfeição do Universo requer que haja desigualdade entre as coisas de modo que todos os graus de bondade se realizem. Há um grau de bondade em que uma coisa é tão boa que não pode deixar de existir. Há outro em que a coisa é boa de modo que pode deixar de existir. E tais gradações se encontram também no ser. Há coisas, as incorruptíveis, que não podem perder o próprio ser, e há outras, as corruptíveis, que podem perdê-lo. A perfeição do Universo requer que haja coisas incorruptíveis assim como coisas corruptíveis, portanto, que haja coisas que possam deixar de ser boas, o que de fato por vezes ocorre. Assim, é evidente que o mal está presente nas coisas, bem como a corrupção, que é uma espécie de mal.”

E, então, segue:

 

“Não é próprio da Providência destruir a natureza, mas sim salvá-la, e segundo Dionísio (Tratado dos nomes divinos, IV) faz parte da natureza que coisas que podem falhar algumas vezes falhem. Ou ainda, como afirma Agostinho (Enchirydion, II), Deus é tão poderoso que pode até fazer o bem a partir do mal. Assim sendo, muitos bens não existiriam se Deus não permitisse a existência de nenhum mal, pois o fogo não seria produzido se o ar não fosse corrompido, a vida do leão não seria preservada se o asno não fosse morto e não se elogiaria a justiça punitiva, nem a paciência do que sofre, se não existisse a iniquidade.”

Homem Possui Livre Arbítrio? Em “Tratado Sobre o Homem”, questão 83, são Tomás escreve a respeito no sentido de Ato Voluntário e Escolha Pessoal. Para Tomás de Aquino o Livre Arbítrio é derivado da racionalidade humana e é um pressuposto da ética – a saber, a possibilidade de escolha. Veja:

 

 “(…) o homem possui o livre-arbítrio, caso contrário seriam vãos os conselhos, as exortações, as ordens, as proibições, as recompensas e as punições. Como evidência disso deve-se considerar que algumas coisas agem sem juízo. Por exemplo, a pedra que se move para baixo e todas as outras coisas que carecem de conhecimento. Outras agem com juízo, mas este não é livre, como no caso dos animais. Por exemplo, a ovelha quando vê o lobo julga que deve fugir, mas tal decisão não é livre, pois ela julga não por comparação, mas por instinto natural. Isso acontece com todos os juízos dos animais. Porém o homem age com juízo porque, devido a sua capacidade cognitiva, julga se deve fugir de alguma coisa ou procurá-la. Mas como seu juízo não resulta de uma aplicação do instinto natural a uma ação particular, e sim de uma comparação realizada pela razão, o homem age de acordo com seu livre juízo, podendo orientar-se para diferentes decisões. A razão pode, com efeito, em relação ao contingente, seguir direções opostas, como nos mostram os silogismos dialéticos e os argumentos retóricos. Como as ações particulares são contingentes, o juízo da razão sobre elas se aplica a diversas ações e não a uma única determinada. Portanto, é necessário que o homem possua o livre-arbítrio pelo simples fato de ser racional.”

A Virtude é um Habito? Na parte II da Suma teológica encontra-se o “Tratado dos Hábitos e das Virtude”, seguindo Aristóteles, entendendo Virtude como um hábito são Tomás concede uma definição, caracterizando os bons hábitos, ou seja, a Virtude.

 

 “Algumas vezes denominamos “virtude” aquilo a que a virtude se dirige, seja o seu objeto ou o ato correspondente. Por exemplo, chamamos de “fé” aquilo em que acreditamos ou o ato de acreditar, bem como o hábito pelo qual acreditamos. Quando dizemos que a virtude é o mais elevado grau de uma potência, “virtude” é entendida como “objeto da virtude”, uma vez que o ponto máximo que uma potência pode atingir é considerado a sua virtude.”

[1] Ética em Santo Agostinho – Livre Arbítrio e Confissões

[2] Ética de Aristóteles em Ética a NICÔMACO

[3] Origem da Ética

[4] Democracia Antiga e Moderna – Diferenças Fundamentais

ÉTICA em SANTO AGOSTINHO – Livre Arbítrio e Confissões.

Santo Agostinho foi o primeiro a fazer leitura Cristã da Antiga filosofia Grega. Assim, marcou não somente a Idade Média, mas influenciou o início da Idade Moderna.

Santo Agostinho (354 d.C – 430 d.C) é, para tradição filosófica ocidental, o representante da primeira síntese entre a filosofia Grega e o cristianismo, principalmente o platonismo – VER Ética em Platão [1]. Dessa forma, Agostinho, com sua obra, não somente marcou a Idade Média, mas, também influenciou o início da Idade Moderna.

A Ética de Agostinho resulta de releituras da filosofia ética Grega [2] em especial Platão e a de origem Romana, em especialmente Sêneca () e seu estoicismo – com o diálogo Beata Vita ou A Vida Feliz, que influenciou seu texto de mesmo nome. E, Hortensius, de Cícero (106 – 43 a.C), sobre filosofia que, segundo o próprio Agostinho, despertou seu interesse por filosofia. Mas, é, em Platão, com leituras à luz do cristianismo, que Agostinho constrói sua filosofia.

Deste modo, as questões levantadas por Agostinho, são uma herança grega tratadas sob o viés Cristão, como, por exemplo, A Natureza Humana e o Caráter inato da Virtude, a Origem do Mal, o Conceito de Felicidade, Liberdade, e a possibilidade de agir de forma Ética.

À vista disso, há duas questões fundamentais na Ética de Agostinho, questões essas que permanecem até os atuais na Ética Cristã.

Afinal, qual a Origem do Mal? Um dos principais temas que contornava o debate na época de Agostinho, pois, a doutrina maniqueísta era muito forte naquele momento e defendiam a existência dos princípios equivalentes, ou seja, o Bem e o Mal em luta constante, identificando em ambos, respectivamente, Deus e o diabo.

Desta maneira, questionavam se Deus é perfeito e entre seus atributos esta a Suprema Bondade – identificada até certo ponto, com a Forma do Bem de Platão – como é possível a existência do Mal? Deus, que é Bom, poderia criar o Mal?

Como Platão, Agostinho defende que só é possível existir o Bem, assim, o Mal, é, na verdade, a ausência do Bem. Deus é bom, mas os seres foram criados inferiores na ordem do Ser, são, portanto, imperfeitos e finitos. O Mal, tem origem a falha ou imperfeição. Esta foi, e é, a solução ética e teológica, criada para o problema da existência do Mal.

Em Confissões, capitulo de 16, Agostinho:

“Senti e não estranhei que o pão tão saboroso ao paladar saudável seja enjoativo ao paladar enfermo e que a luz agradável aos olhos que veem bem seja desagradável aos doentes. E a Vossa justiça é desagradável aos maus — o mesmo acontece com a víbora e os répteis, que foram criados bons e adequados à parte inferior da Criação, à qual os seres maus também pertencem —, sendo tão mais semelhantes quanto são diferentes de Vós. Do mesmo modo, os maus são tão mais semelhantes aos seres superiores quanto mais se tornam semelhantes a Vós. Indaguei sobre a maldade e não encontrei uma substância, mas sim a perversão da vontade afastada de Vós, o Ser Supremo, tendendo em direção às coisas inferiores, expelindo as suas entranhas e inchando-se toda.”

A segunda questão, e diretamente relacionada à primeira é: A LIBERDADE HUMANA. Por quê…

“Se a natureza humana é marcada pelo pecado original, a imperfeição originada na fraqueza de Adão, e faz com que o ser humano esteja sujeito à tentação e aja contrariamente à lei moral, então haveria um determinismo que tornaria inevitável o pecado e, por conseguinte, a ação antiética. Paradoxalmente, os indivíduos não seriam, em última análise, responsáveis por seus atos, já que são levados ao pecado pela própria falha de sua natureza. Neste sentido, não teriam o domínio de suas ações, pois suas atitudes seriam determinadas por esta falha. O ser humano é, assim, compelido a agir contrariamente à ética. Se sua ação é determinada e ele é compelido, então não tem escolha ou liberdade e, portanto, não estaria verdadeiramente pecando.” [3].

Assim, o Livre Arbítrio ou Liberdade Individual, é, para Santo Agostinho, o aspecto humano mais importante, pois, o torna responsável por suas escolhas e decisões. Então, o ser humano com o Livre Arbítrio, pode agir, se bem entender, de forma ética ou não. O Mal Moral, ou o pecado, em Agostinho, resulta das escolhas individuais. Esta possibilidade foi concedida por Deus, para que cada um, individualmente, seja responsável por seus atos. Estejam certos ou errados.

Agostinho, no livro II – em diálogo com Evódio, responde este questionamento e concluí que sem o Livre Arbítrio o homem não poderia ser responsabilizado por seus atos.

“Se é verdade que o homem em si é bom mas não poderia agir bem exceto por querer, seria preciso que tivesse vontade livre para que pudesse agir desse modo. De fato, não é porque o homem pode usar a vontade livre para pecar que se deve supor que Deus a concedeu para isso. Há, portanto, uma razão pela qual Deus deu ao homem esta característica, pois sem ela não poderia viver e agir corretamente. Pode – se compreender, então, que ela foi concedida ao homem para esse fim, considerando – se que se um homem a usar para pecar recairão sobre ele as punições divinas. Ora, isso seria injusto se a vontade livre tivesse sido dada ao homem não apenas para agir corretamente, mas também para pecar. Na verdade, por que deveria ser punido aquele que usasse da sua vontade para o fim para o qual ela lhe foi dada? Quando Deus pune o pecador, não te parece que lhe diz o seguinte: “Estou te punindo porque não usaste de teu livre-arbítrio para fazer aquilo para o que eu o concedi a ti”? Ou seja, para agires corretamente. Entretanto, se o homem não fosse dotado de livre-arbítrio, não poderia existir esse bem que consiste na realização da justiça através da condenação dos pecados e da premiação da ação correta. A conduta de um homem não poderia ser caracterizada nem como correta nem como um pecado, não fosse pelo livre-arbítrio. Da mesma maneira, tanto a punição quanto a recompensa seriam injustas se o homem não tivesse o livre-arbítrio. É preciso que a justiça esteja presente na punição e também na recompensa, porque este é um bem que vem de Deus. Concluo, portanto, que era necessário Deus conceder ao homem o livre-arbítrio.”

[1]. Ética em Platão

[2]. Origem da Ética

[3]. Danilo Marcondes em “Textos Básicos Sobre Ética: De Platão a Foucault

Santo Agostinho

ÉTICA de Aristóteles em ÉTICA a NICÔMACO

A Ética de Aristóteles é Sistemática e Analítica. Ao contrário de Platão, Aristóteles busca uma ética objetiva.

Como já visto, em Ética em Platão [1] as questões levantadas são interligadas, ou seja, passa-se de Verdade e Conhecimento para problemas de Natureza Éticas. Já, a Ética em Aristóteles (384 – 322 a. C) é de caráter sistemático e analítico [2]. Para Aristóteles a vida humana é dividida em três grandes grupos: O SABER TEÓRICO, ou Campo de Conhecimento; O SABER PRÁTICO, ou Campo de Ação; e o SABER CRIATIVO, ou produtivo.

Outra distinção a ser feita é o que diz respeito aos textos que chegaram aos dias atuais. Ao passo que os textos de Platão nos apresentam diálogos os de Aristóteles são, infelizmente, apenas as notas de aulas que nos sobraram. Apesar de Aristóteles também ter produzido diálogos. Tal diferença faz com que os textos aristotélicos aparentem mais “frios”.

No sistema aristotélicos, Ética e Política, são parte do “Saber Prático”, como contraposição ao “Saber Teórico”.

Enquanto a área de domínio do Campo Saber Teórico é a metafisica, a matemática e as Ciências Naturais – principalmente a física, com o intuito de conhecer a realidade. Ou seja, leis e princípios gerais. À medida que, no Campo Prático, o objetivo é determinar em quais condições podemos agir da melhor maneira possível aspirando o objetivo principal que é a felicidade (eudaimonia), ou realização pessoal. O Saber prático é intitulado de “Prudencial”, por ser definido por prudência.

Mas, afinal, O QUE É FELICIDADE e como o SER HUMANO pode alcança-la? São as indagações de Aristóteles em ÉTICA A NICÔMACO. Para isso, Aristóteles analisa a Natureza Humana, e as características que a define da perspectiva da ética, ou seja, as VIRTUDES. Desta forma, a maior parte do texto é destinado aos conceitos de VIRTUDE MORAL (areté), ou excelência de caráter.

Aristóteles define seus objetivos como práticos, ao mesmo tempo em que crítica Platão e sua Forma do bem ou Forma da ideia, por ter caráter genérico e abstrato, o que o distancia da Natureza humana. Como o próprio Aristóteles destaca:

“Acontece o mesmo em relação à forma do bem; ainda que haja um bem único que seja um predicado universal dos bens, ou capaz de existir separada e independentemente, tal bem não poderia obviamente ser praticado ou atingido pelo homem, e agora estamos procurando algo atingível” [2].

Para Aristóteles FELICIDADE OU BEM-ESTAR, é apresentada como algo que todos desejam e buscam e também como objetivo da ética. Veja:

“Chamamos aquilo que é mais digno de ser perseguido em si mais final que aquilo que é digno de ser perseguido por causa de outra coisa , e aquilo que nunca é desejável por causa de outra coisa chamamos de mais final que as coisas desejáveis tanto em si quanto por causa de outra coisa , e portanto chamamos absolutamente final aquilo que é sempre desejável em si , e nunca por causa de algo mais . Parece que a felicidade, mais que qualquer outro bem, é tida como este bem supremo, pois a escolhemos sempre por si mesma, e nunca por causa de algo mais;” [2].

Porém, em seu último livro de Ética a Nicômaco, Aristóteles aclara que felicidade não é deve ser confundida com Prazeres. Mas, sim, entendida em um sentido mais elevado, ou seja, como a contemplação das verdades eternas. Isso quer dizer: é uma característica dos sábios ou dos filósofos.

“De fato, toda a existência dos deuses é bem-aventurada, e a atividade dos seres humanos também o é enquanto apresenta alguma semelhança com a atividade divina, mas nenhum dos outros animais participa da felicidade, porque eles não participam de forma alguma da atividade contemplativa. Então a felicidade chega apenas até onde há contemplação, e as pessoas mais capazes de exercerem a atividade contemplativa fruem mais intensamente a felicidade, não como um acessório da contemplação, mas como algo inerente a ela, pois a contemplação é preciosa por si mesma” [2].

E o que é VIRTUDE? Para Aristóteles é um hábito. Ao contrário de Platão, Aristóteles acredita que virtude pode ser ensinada. Inclusive, esse deve ser o objetivo da filosofia. A virtude não é inata, mas pode ser aprendida e tornar-se um hábito. Ou seja, é preciso prática para se tornar virtuoso. No livro VI Aristóteles clarifica Virtude e o Saber prático em cinco formas: a Arte (techné), o Conhecimento Científico (episteme), a Prudência que é o Saber Prático ou Discernimento (phronesis), a Intuição Intelectual (noesis), e Sabedoria (sophia).

Outro conceito importante é MEIO-TERMO OU A JUSTA MEDIDA (mesotes). É um dos princípios fundamentais na obra Aristotélica. Pois, Aristóteles acredita que, tratando-se de Ética, os extremos são danosos, tanto para excesso quanto à falta de algum atributo. Ou seja, é necessário o equilíbrio. O que pode variar com as situações e ou circunstâncias. Para Aristóteles, moderação é característica de indivíduos éticos.

“Em relação ao meio – termo, em alguns casos é a falta e em outros é o excesso que está mais afastado ; por exemplo , não é a temeridade, que é o excesso, mas a covardia, que é a falta , que é mais oposta à coragem, e não é a insensibilidade, que é uma falta, mas a concupiscência, que é um excesso, que é mais oposta à moderação.” [2].

[1]. Ética em Platão

[2]. Marcondes, Danilo. Textos Básicos de Ética: De Platão à Foucault. Edição do Kindle.

Busto de Aristóteles sobre fundo preto.

RELATIVISMO MORAL, caracteríticas e as três principais variações

Entenda RELATIVISMO MORAL, e veja quais são as caracteríticas e suas três principais variações

Placa de Destino
A placa de Destino sobre um fundo branco com setas escrito em inglês “Right” em fundo verde, “Wrong” em fundo azul e “it depends” com fundo vermelho.

Não há como falar/escrever sobre Relativismo Moral sem antes explanar sobre a base que o fundamenta e as suas três principais variações.

A principal característica e comum aos distintos gêneros de Relativismo Moral é a que sustenta toda a ideia ou pensamento relativista de que nada pode ser Totalmente bom ou Totalmente mau. Todo o pensamento Relativista é baseado em “DEPENDE”.

PARA ALGUNS, DEPENDE de quais critérios éticos são aceitos para si mesmo como indivíduo. Desta forma, ninguém pode julgar moralmente outro ser humano, ou seja, não pode existir valores morais interpessoais.

PARA OUTROS, DEPENDE o que um grupo de pessoas (sociedade ou comunidade) aceita como valores morais e/ou éticos para si mesmo e sustentados por eles. Considerando que existem valores morais interpessoais somente intra-grupos e nunca inter-grupos. Ou seja, aceitam que existem valores diferentes, porém somente entre indivíduos e não entre diferentes grupos.

E, por fim, para outros, há aqueles que acreditam que as pessoas aceitam valores éticos não somente para si mesmo, mas também para os outros, ou seja, existe um valor de aplicação universal, mas com critérios de que esses valores são sempre subjetivos e não podem ser justificados sobre critérios objetivos.

As três variações ou derivações correspondem respectivamente ao “PERSONALISMO”, ao “RELATIVISMO” no sentido estrito e o “UNIVERSALISMO SUBJETIVO”. Segundo as classificações de James S. Fishkin (1984) em “Beyond Subjective Morality: Ethical Reasoning and Political Philosophy”.

Desta maneira, como os juízos Morais e éticos dependem de valores individuais de cada ser humano e como não aceitam pontos de vista éticos diferentes, ou seja, que existem valores verdadeiros, a conclusão do Relativista Moral é que: qualquer ponto de vista pode e, deve, ser aceito como válido.

Consequentemente, qualquer que seja o posicionamento do Relativista Moral o argumento seria inconsistente, porque na medida que avança em argumentos de tolerância universal destrói os próprios princípios éticos do relativismo. Como exemplifica Roger Scruton (1944) em “A Alma do Mundo”, mesmo que existisse uma teoria relativista “x” para mostrar que os valores são falsos ou relativos, a teoria “x” seria, então, da mesma forma, falsa, já que não pode existir valores verdadeiros. Ou seja, o Relativista Moral, sempre cai no Paradoxo do mentiroso.

Então, para que, a teoria relativista, tenha consistência só resta a opção: aceitar o Amoralismo, no sentido de negar qualquer juízo moral ou ético, pois, para ele, não existe valores. À vista disto, resta, ao relativista, duas posições frente ao confronto, evitar qualquer discussão ética/moral, ou passa a exigir vias racionais “aceitáveis” para que ele (o relativista) abandone suas posições de Relativismo Moral.

VEJA TAMBÉM: A ORIGEM DA ÉTICA