Ética de São Tomás de Aquino em A Suma Teológica

Como Santo Agostinho, São Tomás de Aquino realiza uma leitura Cristã dos antigos filósofos gregos. Com ênfase em Aristóteles, São Tomás tornou-se, em sua época, o principal nome a demonstrar a compatibilidade da antiga filosofia grega com o cristianismo

Da mesma forma que Agostinho [1] havia feito 800 anos antes, são Tomás de Aquino (1225 – 1274) produz uma leitura cristã da filosofia Grega, com ênfase em Aristóteles [2]. Assim, Tomás de Aquino, tornou-se o principal nome, em sua época, a demonstrar a compatibilidade entre a ética aristotélica e o cristianismo. Com isso, criou condições para a leitura da filosofia de Aristóteles no final do século XIII que, sob diversas vertentes, perdurou até o final do século XV. E, ainda, é possível encontrar seguidores nos escolásticos da Era Moderna, sobre tudo em questões éticas.

São Tomás ao absorver o pensamento aristotélico sobre Virtude considerando a possibilidade de aperfeiçoamento da Natureza Humana cria um contraste entre a sua ética e a ética de santo Agostinho que, vigente até momento e  perpetuada por pensadores como Bernardo de Clairvaux (1091 – 1153), consideravam, o homem, um ser imperfeito e marcado pelo pecado original.

A VIRTUDE PARA SÃO TOMÁS DE AQUINO, não é o mesmo que para os antigos filósofos gregos – que a relacionavam aos valores da cidade [3] [4] com valores como Coragem, Amizade e Lealdade. Para Tomás de Aquino as Virtudes Teologais são as realmente importantes como a , a Esperança e a Caridade no sentido de amor ao próximo e a Deus. Tomás de Aquino, ainda, reinterpreta o conceito aristotélico de Felicidade transformando-o em Beatitude – visão beatífica de Deus somente possível pela Revelação e Graça Divina.

Outra diferença importante entre o filósofo grego Aristóteles e Tomás de Aquino é sobre o Pecado Original, conceito do filósofo cristão que é inexistente no pensador grego. Apesar das diferenças é possível constatar que Tomás de Aquino invoca constantemente os conceitos aristotélicos como por exemplo Ato/Potência, Finalidade (telos) e o Ente (ens).

A SUMA TEOLÓGICA DE SÃO TOMÁS DE AQUINO escrita, ao estilo de Suma Teológica Medieval, entre 1266 e 1274 que, apesar de ser uma obra inacabada, é o mais importante feito do autor. É uma síntese de caráter sistemático das questões centrais da sua concepção de filosofia e teologia.

A Suma é organizada por meio de respostas às principais questões das áreas tradicionais da filosofia, o Ser, o Conhecimento, e a Verdade e, também, as principais questões da teologia Deus, a Criação, a Graça Divina, os Sacramentos.

É importante notar que Tomás de Aquino utiliza-se tanto da autoridade da Bíblia como dos antigos filósofos gregos, em especial, é claro, Aristóteles.

São Tomás, escreveu também comentários sobre as obras de Aristóteles com destaque para o Corolário à ética a Nicômaco onde retoma questões de sua Suma Teológica.

O Mal Está nas Coisas? Ou A Natureza do Mal. na primeira parte da Suma, Tomás de Aquino analisa por que Deus sendo Bom pode ter criado o Mal, discutindo a tese Agostiniana onde o Mal é privação. Tomás de Aquino rejeita essa ideia e em seguido também a ideia de que o Mal é alguma coisa ou uma entidade passando a compreendê-lo como parte da natureza no sentido de corrupção das coisas que foram criadas por Deus coisas, essas, que podem ser perecíveis e imperfeitas.

Parte I da Suma Teológica “Sobre o Deus Criador” São Tomás escreve sobre A Natureza do Mal:

 

“Respondo que, segundo o que foi dito acima, a perfeição do Universo requer que haja desigualdade entre as coisas de modo que todos os graus de bondade se realizem. Há um grau de bondade em que uma coisa é tão boa que não pode deixar de existir. Há outro em que a coisa é boa de modo que pode deixar de existir. E tais gradações se encontram também no ser. Há coisas, as incorruptíveis, que não podem perder o próprio ser, e há outras, as corruptíveis, que podem perdê-lo. A perfeição do Universo requer que haja coisas incorruptíveis assim como coisas corruptíveis, portanto, que haja coisas que possam deixar de ser boas, o que de fato por vezes ocorre. Assim, é evidente que o mal está presente nas coisas, bem como a corrupção, que é uma espécie de mal.”

E, então, segue:

 

“Não é próprio da Providência destruir a natureza, mas sim salvá-la, e segundo Dionísio (Tratado dos nomes divinos, IV) faz parte da natureza que coisas que podem falhar algumas vezes falhem. Ou ainda, como afirma Agostinho (Enchirydion, II), Deus é tão poderoso que pode até fazer o bem a partir do mal. Assim sendo, muitos bens não existiriam se Deus não permitisse a existência de nenhum mal, pois o fogo não seria produzido se o ar não fosse corrompido, a vida do leão não seria preservada se o asno não fosse morto e não se elogiaria a justiça punitiva, nem a paciência do que sofre, se não existisse a iniquidade.”

Homem Possui Livre Arbítrio? Em “Tratado Sobre o Homem”, questão 83, são Tomás escreve a respeito no sentido de Ato Voluntário e Escolha Pessoal. Para Tomás de Aquino o Livre Arbítrio é derivado da racionalidade humana e é um pressuposto da ética – a saber, a possibilidade de escolha. Veja:

 

 “(…) o homem possui o livre-arbítrio, caso contrário seriam vãos os conselhos, as exortações, as ordens, as proibições, as recompensas e as punições. Como evidência disso deve-se considerar que algumas coisas agem sem juízo. Por exemplo, a pedra que se move para baixo e todas as outras coisas que carecem de conhecimento. Outras agem com juízo, mas este não é livre, como no caso dos animais. Por exemplo, a ovelha quando vê o lobo julga que deve fugir, mas tal decisão não é livre, pois ela julga não por comparação, mas por instinto natural. Isso acontece com todos os juízos dos animais. Porém o homem age com juízo porque, devido a sua capacidade cognitiva, julga se deve fugir de alguma coisa ou procurá-la. Mas como seu juízo não resulta de uma aplicação do instinto natural a uma ação particular, e sim de uma comparação realizada pela razão, o homem age de acordo com seu livre juízo, podendo orientar-se para diferentes decisões. A razão pode, com efeito, em relação ao contingente, seguir direções opostas, como nos mostram os silogismos dialéticos e os argumentos retóricos. Como as ações particulares são contingentes, o juízo da razão sobre elas se aplica a diversas ações e não a uma única determinada. Portanto, é necessário que o homem possua o livre-arbítrio pelo simples fato de ser racional.”

A Virtude é um Habito? Na parte II da Suma teológica encontra-se o “Tratado dos Hábitos e das Virtude”, seguindo Aristóteles, entendendo Virtude como um hábito são Tomás concede uma definição, caracterizando os bons hábitos, ou seja, a Virtude.

 

 “Algumas vezes denominamos “virtude” aquilo a que a virtude se dirige, seja o seu objeto ou o ato correspondente. Por exemplo, chamamos de “fé” aquilo em que acreditamos ou o ato de acreditar, bem como o hábito pelo qual acreditamos. Quando dizemos que a virtude é o mais elevado grau de uma potência, “virtude” é entendida como “objeto da virtude”, uma vez que o ponto máximo que uma potência pode atingir é considerado a sua virtude.”

[1] Ética em Santo Agostinho – Livre Arbítrio e Confissões

[2] Ética de Aristóteles em Ética a NICÔMACO

[3] Origem da Ética

[4] Democracia Antiga e Moderna – Diferenças Fundamentais

ÉTICA de Aristóteles em ÉTICA a NICÔMACO

A Ética de Aristóteles é Sistemática e Analítica. Ao contrário de Platão, Aristóteles busca uma ética objetiva.

Como já visto, em Ética em Platão [1] as questões levantadas são interligadas, ou seja, passa-se de Verdade e Conhecimento para problemas de Natureza Éticas. Já, a Ética em Aristóteles (384 – 322 a. C) é de caráter sistemático e analítico [2]. Para Aristóteles a vida humana é dividida em três grandes grupos: O SABER TEÓRICO, ou Campo de Conhecimento; O SABER PRÁTICO, ou Campo de Ação; e o SABER CRIATIVO, ou produtivo.

Outra distinção a ser feita é o que diz respeito aos textos que chegaram aos dias atuais. Ao passo que os textos de Platão nos apresentam diálogos os de Aristóteles são, infelizmente, apenas as notas de aulas que nos sobraram. Apesar de Aristóteles também ter produzido diálogos. Tal diferença faz com que os textos aristotélicos aparentem mais “frios”.

No sistema aristotélicos, Ética e Política, são parte do “Saber Prático”, como contraposição ao “Saber Teórico”.

Enquanto a área de domínio do Campo Saber Teórico é a metafisica, a matemática e as Ciências Naturais – principalmente a física, com o intuito de conhecer a realidade. Ou seja, leis e princípios gerais. À medida que, no Campo Prático, o objetivo é determinar em quais condições podemos agir da melhor maneira possível aspirando o objetivo principal que é a felicidade (eudaimonia), ou realização pessoal. O Saber prático é intitulado de “Prudencial”, por ser definido por prudência.

Mas, afinal, O QUE É FELICIDADE e como o SER HUMANO pode alcança-la? São as indagações de Aristóteles em ÉTICA A NICÔMACO. Para isso, Aristóteles analisa a Natureza Humana, e as características que a define da perspectiva da ética, ou seja, as VIRTUDES. Desta forma, a maior parte do texto é destinado aos conceitos de VIRTUDE MORAL (areté), ou excelência de caráter.

Aristóteles define seus objetivos como práticos, ao mesmo tempo em que crítica Platão e sua Forma do bem ou Forma da ideia, por ter caráter genérico e abstrato, o que o distancia da Natureza humana. Como o próprio Aristóteles destaca:

“Acontece o mesmo em relação à forma do bem; ainda que haja um bem único que seja um predicado universal dos bens, ou capaz de existir separada e independentemente, tal bem não poderia obviamente ser praticado ou atingido pelo homem, e agora estamos procurando algo atingível” [2].

Para Aristóteles FELICIDADE OU BEM-ESTAR, é apresentada como algo que todos desejam e buscam e também como objetivo da ética. Veja:

“Chamamos aquilo que é mais digno de ser perseguido em si mais final que aquilo que é digno de ser perseguido por causa de outra coisa , e aquilo que nunca é desejável por causa de outra coisa chamamos de mais final que as coisas desejáveis tanto em si quanto por causa de outra coisa , e portanto chamamos absolutamente final aquilo que é sempre desejável em si , e nunca por causa de algo mais . Parece que a felicidade, mais que qualquer outro bem, é tida como este bem supremo, pois a escolhemos sempre por si mesma, e nunca por causa de algo mais;” [2].

Porém, em seu último livro de Ética a Nicômaco, Aristóteles aclara que felicidade não é deve ser confundida com Prazeres. Mas, sim, entendida em um sentido mais elevado, ou seja, como a contemplação das verdades eternas. Isso quer dizer: é uma característica dos sábios ou dos filósofos.

“De fato, toda a existência dos deuses é bem-aventurada, e a atividade dos seres humanos também o é enquanto apresenta alguma semelhança com a atividade divina, mas nenhum dos outros animais participa da felicidade, porque eles não participam de forma alguma da atividade contemplativa. Então a felicidade chega apenas até onde há contemplação, e as pessoas mais capazes de exercerem a atividade contemplativa fruem mais intensamente a felicidade, não como um acessório da contemplação, mas como algo inerente a ela, pois a contemplação é preciosa por si mesma” [2].

E o que é VIRTUDE? Para Aristóteles é um hábito. Ao contrário de Platão, Aristóteles acredita que virtude pode ser ensinada. Inclusive, esse deve ser o objetivo da filosofia. A virtude não é inata, mas pode ser aprendida e tornar-se um hábito. Ou seja, é preciso prática para se tornar virtuoso. No livro VI Aristóteles clarifica Virtude e o Saber prático em cinco formas: a Arte (techné), o Conhecimento Científico (episteme), a Prudência que é o Saber Prático ou Discernimento (phronesis), a Intuição Intelectual (noesis), e Sabedoria (sophia).

Outro conceito importante é MEIO-TERMO OU A JUSTA MEDIDA (mesotes). É um dos princípios fundamentais na obra Aristotélica. Pois, Aristóteles acredita que, tratando-se de Ética, os extremos são danosos, tanto para excesso quanto à falta de algum atributo. Ou seja, é necessário o equilíbrio. O que pode variar com as situações e ou circunstâncias. Para Aristóteles, moderação é característica de indivíduos éticos.

“Em relação ao meio – termo, em alguns casos é a falta e em outros é o excesso que está mais afastado ; por exemplo , não é a temeridade, que é o excesso, mas a covardia, que é a falta , que é mais oposta à coragem, e não é a insensibilidade, que é uma falta, mas a concupiscência, que é um excesso, que é mais oposta à moderação.” [2].

[1]. Ética em Platão

[2]. Marcondes, Danilo. Textos Básicos de Ética: De Platão à Foucault. Edição do Kindle.

Busto de Aristóteles sobre fundo preto.

ÉTICA EM PLATÃO

Platão, sob a influêcia de seu mestre, Socrátes, discorre sobre diversos temas relacionados à ética.

Quadro Escola de Atenas de Rafaello Sanzio (1483-1520)

Platão (428/427 – 348/347) é considerado o primeiro grande filósofo a trazer à tona o tema ÉTICA. [1] Assuntos como: amizade (lisis), a virtude (mênon), a coragem (laqueado) e o sentimento religioso (eutífron), foram introduzidos no cotidiano grego através dos diálogos platônicos, e discutidos filosoficamente até os dias atuais.

São diálogos entre Sócrates e personagens históricos do cotidiano ateniense e, alguns outros, fictícios, que discutem sobre temas éticos. Acredita-se que Platão, nesse período, está sob a influência de seu mestre Sócrates.

Sócrates, através das letras de Platão, irá levantar importantes questionamentos éticos. Pontos que, no decorrer da história, rendera a filosofia discussões fundamentais como: conceitos, critérios de aplicações na prática cotidiana. E, se, a ética, é parte da natureza humana ou se são apreendidas e, se é possível ensiná-la.

Platão usa, em seus diálogos, o estilo aporético, ou seja, não é possível encontrar uma solução definitiva para os problemas levantados, ou, ao menos, definir conceitos éticos.

Para Danilo Marcondes em “Textos Básicos Sobre Ética: De Platão a Foucault” escreve citando o próprio Sócrates:

“Talvez a lição socrática esteja principalmente na importância do desenvolvimento de uma consciência moral, de uma atitude reflexiva e crítica que nos leve a adotar comportamentos mais éticos, e não na formulação de um saber sobre a ética e seus conceitos. É o que diz Sócrates na célebre passagem da Apologia (38a): “A vida sem exame não vale a pena ser vivida.”

Os diálogos socráticos têm caráter teórico. É o momento em que, Platão desenvolve sua teoria metafísica, conhecida como Teoria das formas ou Teoria das Ideias.

Platão em “Republica” nos livros VI e VII caracteriza a Forma do Bem como “Suprema Forma”, este é seu princípio metafísico mais importante. Desta forma, por ser de difícil explicação, e, principalmente, ser um princípio, o filósofo fornece três mitos para facilitar a exemplificação da sua Teoria. A trilogia “Mito do Sol”, “Linha Dividida” e “A Caverna”. Para esclarecer, em linguagem figurada, a Natureza do Bem.

Na alegoria da Caverna, através de Sócrates, Platão diz:

Nos últimos limites do mundo inteligível aparece-me a ideia (ou forma) do Bem, que se percebe com dificuldade, mas que não se pode ver sem se concluir que ela é a causa de tudo que há de reto e de belo”

Ou seja, para Platão, o sábio é quem alcançou o Bem através da dialética – Ascensão da Alma – até um lugar mais elevado e abstrato do real, podendo, desta maneira, agir de forma justa. 

“Pois ao conhecer o Bem, conhece também a Verdade, a Justiça e a Beleza. É por este motivo que a concepção ética de Platão ficou conhecida como “metafísica do Bem”. A forma do Bem é, por conseguinte, o fundamento da ética.” [2]

Mesmo que Platão faça, posteriormente, uma revisão crítica de sua Teoria das Formas ou Teoria das Ideias, as preocupações éticas reaparecem entre seus últimos diálogos conhecidos, como, por exemplo, Filebo e As Leis.

CONCLUSÃO. Desta forma, é possível compreender o que é fundamental na obra de Platão:

O indivíduo que age de modo ético é aquele que é capaz de autocontrole, de “governar a si mesmo”, como vemos no Górgias. Entretanto, a possibilidade de agir corretamente e de tomar decisões éticas depende de um conhecimento do Bem, que é obtido pelo indivíduo por meio de um longo e lento processo de amadurecimento espiritual, “a ascensão da alma”, tal como descrita na Alegoria da Caverna.”[2]

[1]. Origem da Ética. Os gregos estabelecem uma vida moral como sendo uma vida boa, bem-sucedida – a eudaimonia.

[2]. Danilo Marcondes em “Textos Básicos Sobre Ética: De Platão a Foucault”.