Ética em Freud, Sigmund

Com seu Conceito de Inconsciente, Freud, revolucionou o pensamento à respeito da Ética e da Moral do Século XX, questionando, principalmente, o racionalismo Moderno de Descartes e a sua Subjetividade

De origem judaica, Sigmund Schlomo Freud nasceu em Freiberg na Morávia em 1856. O criador da psicanalise foi um pensador de grande influência em campos diversos do conhecimento como ciências, filosofia, religião e artes. Formou-se em medicina e especializou-se em psiquiatria. Morou em Viena, capital do império austríaco, e considerado um grande centro cultural de sua época, início do século XX. Esteve em Paris, porém foi em Viena que passou grande parte de sua vida profissional, lugar onde elaborou sua teoria psicanalítica e realizou seu trabalho clínico. Morreu em Londres 1939, onde estava exilado fugindo da perseguição Nazista.

A interpretação dos Sonhos (1900), foi a primeira obra de relevância deste pensador, onde é possível encontrar, pela primeira vez, o conceito de inconsciente.

Conceito de inconsciente como entrada para à linguagem do inconsciente e a discussão sobre a função da sexualidade na natureza humana, são importantes fontes na crítica ao racionalismo moderno, principalmente, o conceito de subjetividade proveniente de Descartes – onde, acredita-se que, o sujeito pensante, tem total ingresso à sua própria consciência, à sua interioridade. Ou seja, Freud ataca a fundamentação ética da razão e a possibilidade da razão desse valores; questionando, ainda, o ideal de natureza humana, que presume algumas virtudes e, também, ataca, a consciência moral como instância central das decisões éticas.

Isto é, para o psicanalista, as ações humanas não dependem totalmente do controle racional e das decisões conscientes do ser humano, pelo contrário, as ações humanas, em grande parte são determinadas no inconsciente – instintos, desejos reprimidos, traumas, etc. – lugares no indivíduo que ele mesmo não tem acesso, pelo menos não plenamente.

Como funciona o Aparelho Psíquico? Para Freud, é constituído de Id (isso), o que corresponde ao inconsciente; Ego (eu) à consciência; e o SuperEgo (SuperEu), autoridade externa, ou seja, valores morais.

Com estes conceitos, Freud, revolucionou o tradicional pensamento de subjetividade e de consciência, o que, consequentemente, afetou as discussões sobre a Origem da Ética, desde consciência moral até os valores.

O Mal-Estar na Civilização – A consciência Moral, publicado em 1930, em Viena em meio à crises políticas e econômicas, no período conhecido como entreguerras, pouco antes da subida Nazista ao poder. Tem a pretensão de discutir civilização como o resultado do controle sobre os instintos agressivos do ser humano e da luta entre dois atributos  da natureza humana; Eros, a força, agregação entre os homens, ou seja, formação da família, da sociedade etc. e Tânatos; o instinto de morte, para tentar esclarecer a agressividade e instintos destrutivos dos homens.

Desta forma, o pensandor, concluí que “A Culpa” é um dispositivo essencial para a formação da civilização humana, servindo para reprimir os impulsos agressivos dos seres humanos.

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Ética em Max Weber

Max Weber foi um proeminente pensador. Contribuiu para diversas áreas do pensamento com temas que circulam entre Ética na política, Limite da Responsabilidade Moral e Política como Vocação

M. Weber (1864 – 1920) foi um intelectual, jurista e economista alemão. Considerado um dos fundadores das ciências sociais contemporânea. Seu pensamento tem enorme relevância e contribui para diversas áreas como política, economia, história e filosofia falando principalmente sobre ética. Sua obra intitulada “A ética protestante e o espírito do capitalismo” de 1905 é provavelmente a mais importante.

Entre os temas centrais da ética de M. Weber está a questão do Limite da responsabilidade de Moral, originado pelo seu interesse pela influência do protestantismo, principalmente calvinista, na formação da sociedade e da cultura na Europa do século XVI.

Nesta análise, sobre a formação da sociedade moderna, o filósofo procura refletir sobre o cálculo racional no momento da decisão em que se considera os meios para atingir os objetivos e, então, discute eficiência como critério para determinar as ações socias.

Outra questão importante, na obra deste pensados, é a contribuição técnica e científica à sociedade.

É importante ressaltar, ainda, a distinção teórica e metodológica que, M. Weber, faz entre ciências naturais e ciências socias que, segundo Danilo Marcondes () é, “(…) uma das discussões mais controvertidas da filosofia da ciência do século XX. A obra, supostamente pessimista, deve ser colocada dentro do contexto temporal em termos sociais, políticos e econômicos já que, M weber faz suas reflexões tanto ás vésperas da Primeira Guerra Mundial quanto, longo em seguida, a crise alemã, no pôs guerra.

A política como Vocação de M. Weber, engloba duas conferências sobre vocação política às quais foram ministradas aos estudantes da universidade de Munique em 1919. Obra onde o filósofo formula sua distinção entre ética da convicção (Gesinnungsethik)  e a ética da responsabilidade (Verantwortungsethik).

Inicialmente é um contraste entre a situação política da Alemanha e as políticas de outros países Europeus, em especial a Inglaterra, também com as nações do oriente e, principalmente com o Estados Unidos, buscando, desta forma, analisar características específicas e a formação dos sistema político de cada um deles. Para, em seguida, questionar a relação entre ética e política.

A pergunta que norteia o pensador é Haveria, na política, uma especificidade ética? Dentro deste contexto, M. Weber, elaborará sua resposta onde faz a diferenciação entre a Ética da Convicção e a Ética da Responsabilidade.

Apesar de utilizar como referência o Sermão da Montanha” – Evangelho segundo Mateus 5; 38-42 -, para M. Weber a ética da Convicção não é necessariamente religiosa, já que é caracterizada, especialmente, por um compromisso com um conjunto de valores associado a determinadas crenças, ou seja, as intenções dos sujeitos são mais importantes que as considerações dos resultados e o sucesso dos seus atos.

Já a Ética da responsabilidade, pelo contrário, procura valorizar as consequências das ações do sujeito, e as relações entre meios e fins, baseando as ações em atos bons ou maus.

Mesmo que, as duas ética de M. Weber, não se excluam, a consideração das consequências e o compromisso com a convicção podem entrar em conflito.

Max Weber, foi um defensor da Ética da Responsabilidade, à qual considerava mais crítica, mais prática e adequada a decisões políticas. Enquanto, a Ética da Convicção, acreditava o filósofo, era mais rígida e dogmática.

Veja Max Weber em Política como Vocação:

“Devemos ser claros quanto ao fato de que toda conduta eticamente orientada pode ser guiada por uma de duas máximas fundamental e irreconciliavelmente diferentes: a conduta pode ser orientada para uma “ética das últimas finalidades”, ou para uma “ética da responsabilidade”. Isto não é dizer que uma ética das últimas finalidades seja idêntica à irresponsabilidade, ou que a ética de responsabilidade seja idêntica ao oportunismo sem princípios. Naturalmente ninguém afirma isso. Há, porém, um contraste abismal entre a conduta que segue a máxima de uma ética dos objetivos finais — isto é, em termos religiosos, “o cristão faz o bem e deixa os resultados ao Senhor” — e a conduta que segue a máxima de uma responsabilidade ética, quando então se tem de prestar conta dos resultados previsíveis dos atos cometidos. Pode-se demonstrar a um sindicalista convicto, partidário da ética dos objetivos finais, que seus atos resultarão num aumento das oportunidades de reação, na maior opressão de sua classe e na obstrução de sua ascensão — sem causar nele a menor impressão. Se uma ação de boa intenção leva a maus resultados, então, aos olhos do agente, não ele, mas o mundo, ou a estupidez dos outros homens, ou a vontade de Deus que assim os fez, é responsável pelo mal. Mas um homem que acredita numa ética da responsabilidade leva em conta precisamente as deficiências médias das pessoas; como Fichte disse corretamente, ele não tem nem mesmo o direito de pressupor sua bondade e perfeição. Não se sente em condições de onerar terceiros com os resultados de suas próprias ações, na medida em que as pôde prever. Dirá: esses resultados são atribuídos à minha ação. Quem acredita numa ética de objetivos finais só se sente responsável por fazer que a chama das intenções puras não seja sufocada: por exemplo, a chama do protesto contra a injustiça da ordem social. Reanimá-la sempre é o propósito de seus atos bastante irracionais, julgados à luz de seu possível êxito. São atos que só podem ter, e só terão, valor exemplar.”

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Ética em John Stuart Mill, o Utilitarismo

Conhecido e difundido durante o século XVIII, o utilitarismo, atravessou os séculos e, entre críticos e adeptos, se tornou a inspiração para discursos políticos como “bem-estar social” e “Maximização do Benefício”.

John Stuart Mill (1806 – 1873), filósofo, pensador político e ativista liberal. É considerado, por muitos filósofos da língua inglesa, como um dos mais influentes do século XIX. O filósofo foi membro do parlamento inglês em 1885, defendendo, principalmente, os diretos das mulheres, onde apresentou uma petição para estender o sufrágio às mulheres. É conhecido por trabalhos nos campos da filosofia política, economia, lógica e ética – o Utilitarismo.

UTILITARISMO,

como corrente de pensamento ético e político, é originalmente fruto dos pensadores francês Claude-Adrien Helvétius (1715-71) que influenciou o inglês Jeremy Bentham (1748-1832). Os dois pensadores desenvolveram o “Princípio da Utilidade” como critério para o valor moral de uma atitude. Segundo este princípio, o bem moral é aquilo que aumenta os benefícios e reduz a dor e sofrimento. Desta maneira, o valor da ação moral é medido através do maior número de pessoas beneficiadas, ou seja, o caráter ético da ação é avaliado sob o ponto de vista de suas consequências e resultados.

O Utilitarismo foi bastante difundido no século XVIII, durante o iluminismo, pois ia ao encontro de uma demanda por projetos de reforma social. Influenciado pela revolução francesa, que concedeu a Bentham o título de cidadão honorário, constituiu-se como um princípio de aplicação prática.

O “usefull” (útil) é aquilo que contribui para ao bem-estar geral. Desta forma, fica fácil compreender que, o utilitarismo, enquanto pensamento ético, expandiu sua influência para os séculos posteriores, permanecendo como uma das principais correntes filosóficas, no campo da ética, inspirando posições políticas como o de “Bem-estar social” e o conceito de “Maximização do benefício”.

Contudo, o utilitarismo, foi muito criticado por diversos pensadores racionalistas, como, por exemplo Immanuel Kant, contrário a ética das consequências.

O Utilitarismo em John Stuart Mill

Stuart Mill foi um dos maiores defensores do utilitarismo no século XIX – inclusive, o primeiro a utilizar o termo – buscando argumentar contra seus opositores e críticos, escrevendo, em 1863, a obra Utilitarism.

Sob a influência de Helvétius e Bentham, de quem era afilhado, Mill retoma às ideias de seus antecessores e as coloca à disposição de sua militância política, o liberalismo. No entanto, nem sempre os conceitos em defesa de “prazer” e “felicidade” ficam visíveis, da mesma forma, que, não é clara, a passagem entre “prazer” ou “realização individual” para o “bem comum”, o que acaba por promover um debate ainda mais intenso envolta das ideias utilitaristas até os dias atuais.

Para Stuart Mill, o princípio de máxima felicidade é universal, porém, o filósofo considerava que só é possível aplicá-lo a partir de contextos históricos, para, só então, definir que tipo de liberdade e direitos pode ser definidos.

No livro “Utilitarismo” Stuart Mill tenta busca uma definição para o termo enquanto propõe alguns esclarecimentos para responder as objeções tradicionais.

Desta forma, desvincula o termo utilidade como teste para certo e errado e como uma oposição ao prazer, nas palavras de Mill:

“Uma simples observação deveria bastar contra a confusão dos ignorantes que supõem que aqueles que defendem a utilidade como teste do certo e do errado usam este termo no sentido restrito e meramente coloquial em que o útil se opõe ao prazer.”

Depois vincula “prazer” como sendo a própria utilidade junto a ausência de dor. Nas palavras do filósofo Mill:

“Aqueles que sabem um pouco sobre essa questão estão cientes de que todos os autores, de Epicuro a Bentham, que defenderam o princípio da utilidade o entenderam não como algo a ser contraposto ao prazer, mas sim como o próprio prazer, juntamente com a ausência de dor.”

Dessa forma, explica:

“O credo que aceita como fundamento da moral o Útil ou Princípio da Máxima Felicidade, considera que uma ação é correta na medida em que tende a promover a felicidade, e errada quando tende a gerar o oposto da felicidade. Por felicidade entende-se o prazer e a ausência da dor; por infelicidade, dor, ou privação do prazer. Para proporcionar uma visão mais clara do padrão moral estabelecido por essa teoria, é preciso dizer muito mais; em particular, o que as ideias de dor e prazer incluem e até que ponto essa questão fica em aberto.”

John Stuart Mill

 

Ética em Nietzsche, A Transvaloração de Todos os Valores

Entre os mais ácidos críticos da cultura ocidental, Nietzsche se destaca trazendo, para filosofia ética, uma proposta radical a “Transvaloração de Todos os Valores.

Friedrich Wilhelm Nietzsche (1844-1900), filósofo, filólogo, crítico cultural, poeta e compositor prussiano, onde hoje é a Alemanha. Filho de pastor luterano foi marcado por uma rígida educação religiosa protestante. É um dos críticos mais ácidos da moral tradicional desde a filosofia grega antiga à filosofia cristã. Ficou conhecido, especialmente pelo radicalismo de propor a “Transvaloração de Todos os Valores” em Ecce Homo de 1888, buscando cortar laços não somente com a filosofia moral tradicional Judaico-cristã, mas, também, com a filosofia grega desde Sócrates, que é representativo no racionalismo e de uma visão unilateral que, segundo Nietzsche, prevaleceu na cultura ocidental.

O próprio Nietzsche define seu pensamento como uma “crítica a modernidade” em Além do Bem e do Mal. Especialmente, no campo da ética, procura mostrar que ela (a ética), não se fundamenta na razão. Para Nietzsche, a ética cristã se caracteriza pela “moral de rebanho” onde os indivíduos são levados pela maioria e seguem os ensinamentos da moral tradicional de maneira não crítica.

Ainda há outro conceito importante sobre moral em Nietzsche o “homem ressentido”, que é aquele que assume a culpa e o pecado como sendo próprio da sua natureza, dessa forma, reprime seus impulsos vitais, sua vontade, e sua criatividade em nome da submissão às autoridades como religiões, o Estado e as instituições em geral. Essa é, para o filósofo, a moral dos fracos, que consegue impor aos fortes, por meio destes recursos, o “remorso” colocado, na cabeça de todos os indivíduos, pela tradição.

Desta maneira, Nietzsche, vai em direção à valores que visam a afirmar a vida, que dê aos seres humanos um impulso para outra direção, ou seja, a superação de suas limitações por meio do encorajamento da Vontade, à sensibilidade e à criatividade.

Em Além do Bem e do Mal de 1886, Nietzsche, questiona a dicotomia entre o Bem e o Mal à qual é baseado toda a moral tradicional, relacionando-a a verdadeiro/falso onde está assentada a tradição filosófica do conhecimento. E, até caracteriza como “preconceito dos filósofos”.

Para Nietzsche, conceitos tratados como objetivos e derivados da razão universal são, na verdade, fruto do sentimentos e instintos humanos, resultantes da história, da cultura e da educação. Assim, é necessário libertar os homens dessas amarras do preconceito dos valores tradicionais e, então, reafirmar a vida, redescobrir valores que permitam aos homens o pleno desenvolvimento do que há de mais nobre na natureza, para que, assim, seja capaz de superar a si mesmo e seguir em direção do “homem do futuro”.

Há, ainda, em Além do Bem e do Mal, a contribuição à história da Moral, onde Nietzsche crítica a tentativa dos filósofos de fundamentar a moral e de criar uma ciência da moral, sem ao menos se perguntarem qual o sentido da moral, ou seja, sem problematizá-la. É neste ponto onde Nietzsche propõe uma perspectiva histórica da moral, mostrando a necessidade de comparar as diversas visões sobre a moral que existem.

Em Genealogia da Moral de 1887, Nietzsche segue a ideia do livro anterior, supracitado, aprofundando ainda mais sua crítica através do método genealógico, assim, o filósofo, deseja mostrar que os conceitos e valores tradicionais não são pactuados objetivamente e nem são universais, ou seja, têm momentos históricos e culturas específicas que o determina. Desde modo, servem a interesses e propósitos que, no decorrer da história ou da tradição, acabam por desmascarar a aparente objetividade dos valores, como, por exemplo a “moral de rebanho” da cultura judaico-cristã, que determinam valores como compaixão e submissão aos fortes como forma de dominá-los. Não se trata de uma análise histórica, o método nietzschiano procura mostrar, através da análise crítica, conjunturas e elementos periféricos da tradição e seu encadeamento de formação.

Em Ecce Homo de 1888, Nietzsche define seu livro Genealogia da Moral como sendo três dissertações.

A Primeira dissertação é a psicologia do cristianismo, nas palavras do filósofo:

“(…) nascido do espírito do ressentimento e não, como se supõe, do Espírito, um movimento contrário em sua essência, uma grande rebelião contra a dominação dos valores nobres”.

A Segunda dissertação trata a “Psicologia da Consciência” não de forma que seja “voz de Deus no homem”, mas o instinto de crueldade que se volta para dentro do homem quando não se pode externá-lo. Na voz do filósofo:

“A crueldade é revelada, pela primeira vez, como um dos mais antigos e mais indispensáveis elementos na fundação da cultura.”

A Terceira dissertação é uma resposta à questão sobre a origem terrível do poder do ideal ascético – no sentido daquele que se volta a vida religiosa, ou espiritual.

Nessas três dissertações Nietzsche acreditava ter a chave para a “Transvaloração de todos os valores”. Segundo o filósofo:

“Trata-se de três ‘aberturas’ psicológicas decisivas que precedem a transvaloração de todos os valores.”

Nietzsche

Ética em Søren Aabye Kierkegaard, Abraão, um Conflito entre a Fé e a Ética

Um dos mais originais filósofos do século XIX, inicia o existencialismo explorando os conflitos e paradoxos da situações-limite entre fé e ética.

Søren Aabye Kierkegaard (1813 – 1855), filósofo dinamarquês. Foi um dos mais originais e importantes pensadores do século XIX. Considerado o filósofo que inicia o existencialismo.

Kierkegaard, em sua obra aborda temas filosóficos, teológicos e literários, em um estilo marcado fortemente pelo cunho pessoal. Utilizando, frequentemente alter ego e heterônimos para representar as diversas perspectivas da realidade e da existência humana, apresentando, inclusive, estilos distintos. Entre os mais conhecidos estão: Victor Eremita, Constantino Constantius, Johannes de Silentio e Johannes Clímaco.

Visceralmente, marcado por uma severa educação luterana, filho de pastor protestante, o filósofo, sempre manteve uma conflituosa relação com a igreja oficial da Dinamarca.

Graduou-se em teologia na Universidade de Copenhagen em 1841, defendendo a tese sobre o Conceito de Ironia em Sócrates. Em seguida, em Berlim, estudou filosofia, onde teve contato com Friedrich Schelling (1775 – 1854).

Sempre de forma autobiográfica, sua obra é bastante assimétrica, evidenciando angustia, principalmente sobre as questões religiosas. Criticou o hegelianismo, muito difundido na Dinamarca, naquela época, questionando o universalismo e o caráter abstrato e especulativo dessa filosofia. Kierkegaard, ao contrário, buscava valorizar a subjetividade e a experiência individual do encontro com o absurdo do mundo diante do silêncio de Deus, que força o indivíduo a buscar sentido para a própria existência.

Ou seja, é a irracionalidade da experiência com o real junto a impossibilidade de decisões racionais e de podermos justificar nossas ações de maneira ética.

Dessa forma, para Kierkegaard, as questões éticas estão vinculadas a impossibilidade de certeza das escolhas, assim, não poder justificá-las. Para isso, então, é necessário um “salto no escuro”, isto é, é necessário fé, que está além da racionalidade, da justificação ou até mesmo da compreensão.

Em Temor e Tremor de 1843, o filósofo faz referência a epístola de são Paulo aos filipenses, 2 -12, assinando com pseudônimo de Johannes de Silentio, que, por sua vez, é baseado em um personagem do conto dos irmãos Grimm. No texto, Kierkegaard, retoma a história do sacrifício de Isaac, gênesis 22, no antigo testamente, discutindo a questão do supremo sacrifício sem esperança de recompensa, explicações ou justificativas.

Discute, assim, situações-limite, onde princípios éticos – como no caso de Abraão de proteger seu filho – são colocados à prova por princípios mais elevados, isto é, a ordem divina, e, pela fé, que deve ser seguida, mesmo sem conseguir compreendê-la. O conflito está então entre a ética e a fé, ou seja, entre aquilo que é possível compreender e aquilo que não é possível compreender, mas, simplesmente, crer.

O que o filósofo deseja explorar é os conflitos e paradoxos das situações-limite, como a de Abraão, onde o ser humano é colocado à prova sem qualquer explicação, o que causa “aniquilamento” para usar as palavras do próprio autor:

“Quando me ponho a refletir sobre Abraão, sinto-me aniquilado”.

Immanuel Kant em A religião no Limite da razão de 1793, considera, em oposição a atitude de Abraão, que uma pessoa que chega a conclusão que Deus ordenou agir de forma não ética deve estar errada. Porém, em Kierkegaard, Abraão vive um conflito ético entre o dever com seu filho ou o dever com Deus, que no caso, prevalece. Para o filósofo dinamarquês, Abraão não negou a ética ao aceitar fazer o sacrifício de Isaac, mas submete a ética a uma “Suspensão Teleológica” – isto é, a ética esta suspensa enquanto a fé estiver envolvida.

Para Kierkegaard, o silêncio de Abraão é por conta da inexplicável condição em que se encontra, desta forma, seria inútil tentar fazer os outros compreenderem o seu conflito interior. Nas palavras do filósofo:

“quando a esperança se torna absurda, Abraão crê”.

Ou seja, é a fé de Abraão, no final, que salva Isaac, quando deus envia um anjo para substituir Isaac por um cordeiro.

Abraão vive uma experiência individual e radical, onde não encontra explicações nem respostas cabíveis nos princípios universais e abstratos da ética.

Kierkegaard, Søren Aabye

 

Ética em Immanuel Kant

Immanuel Kant é, entre os modernos filósofos da ética, provavelmente, o mais influente deles. Com uma ética de princípios e seu racionalismo conquistou muitos seguidores no decorrer dos séculos seguintes

O filósofo prussiano, Immanuel Kant (1724 – 1804), está entre os pensadores da ética mais influentes do período moderno. Com uma ética de princípios e seu racionalismo, conquistou importantes seguidores no pensamento contemporâneo, pensamento, este, que se desenvolve através da influência da obra kantiana.

A Crítica da Razão Pura de 1781 inicia a fase crítica da obra do filósofo à qual é possível notar na sequência em Crítica da Razão Prática de 1788, sua obra mais importante no campo da ética. Immanuel Kant, têm como objetivo central a investigação da Razão no sentido Teórico e Prático. Dessa forma, passa a examinar as condições em que a razão funciona, como ela opera e, também, qual seu objetivo.

No ponto de vista TEÓRICO, o filósofo, refere-se ao conhecimento legítimo da realidade apoiado nas distinções entre entendimento e conhecimento. Já, na PRÁTICA, trata-se da livre escolha dos seres racionais, que podem ou não obedecer à lei moral, que é, para Kant, a consequência da Razão Pura, no sentido prático. Desta forma, age eticamente aquele que é competente em se autodeterminar. Ou seja, a autonomia da razão é um pressuposto fundamental da ética kantiana.

A Fundamentação da Metafísica dos Costumes de 1785, é a primeira, entre as três principais obras do filósofo sobre ética. Obra que estabelece as bases que Immanuel Kant usará na obra posterior, supracitada, Crítica da Razão Prática de 1788, e, então posteriormente a conclusão com Metafísica do Costumes de 1797-8.

Mesmo que no prefácio de Metafísica dos Costumes Kant afirme que deseja:

“(…) formular uma filosofia moral pura, completamente depurada de tudo que fosse apenas empírico e que pertencesse ao campo da antropologia”

O filósofo também se atentou para as questões morais concretas e de aplicação prática dos princípios éticos.

Textos menos conhecidos como a Carta a Maria Von Herbert de 1792 e Sobre a Relação entre teoria e Prática na Moral em Geral de 1793, assim como outros, publicados após sua morte e incluídos no Opus Postumum, são valorizados por diversos interpretes contemporâneos, principalmente por apresentarem a preocupação de Kant com questões de ordem prática e de natureza concreta. Ou seja, levam em consideração as emoções e os sentimentos da perspectiva da ética, indo além do racionalismo da Crítica da Razão Pura.

Assim, é possível notar que ética é parte fundamental na filosofia kantiana, o que é demonstrado nas formulações dos problemas centrais propostos como: “O Que Posso Saber?”, “O Que Devo Fazer?”, “O Que é Lícito Esperar?” e “O Que é o Homem?”. Com isto posto, O filósofo nos apresenta a seguinte conclusão:

“À primeira questão, responde a metafísica; à segunda, a moral; à terceira, a religião; e à quarta, a antropologia. Mas, no fundo, poderíamos atribuir todas à antropologia porque as três primeiras questões remetem à última.”

O Imperativo Categórico, famoso princípio Kantiano:

“age somente de acordo com aquela máxima pela qual possas ao mesmo tempo querer que ela se torne uma lei universal”.

Exposto em Fundamentação da Metafísica dos Costumes, determina que a ação moral é aquela que pode ser universalizada. Isto é, de acordo com o texto, os deveres e princípios éticos não aceitam exceção. O Imperativo mostra o que deve ser feito por que deriva da própria razão. O mesmo conceito de Imperativo Categórico ainda é revisitado, pelo filósofo, na Analítica da Crítica da Razão Pura.

Em O Que é Esclarecimento? de 1784, Immanuel Kant, tenta responder a um pastor que o havia questionado a respeito do conceito de esclarecimento ou sobre iluminismo. Desta forma, o filósofo elabora a discussão em torno da autonomia do indivíduo no exercício da própria razão, pois somente desta maneira que é possível ter Maturidade, segundo o conceito kantiano, ou seja, somente assim que se pode caracterizar liberdade.

Para Immanuel Kant:

“O Esclarecimento é a saída do homem da condição de menoridade autoimposta. Menoridade é a incapacidade de servir-se de seu entendimento sem a orientação de um outro.”

Depois segue:

“Esta menoridade é autoimposta quando a causa da mesma reside na carência não de entendimento, mas de decisão e coragem em fazer uso de seu próprio entendimento sem a orientação alheia. Sapere aude! Tenha coragem em servir-te de teu próprio entendimento! Este é o mote do Esclarecimento.”

Immanuel Kant

 

Ética de David Hume em Tratado da Natureza Humana

A Razão, para Hume, é inativa, ou seja, a mente está sujeita as percepções e não tem influência sobre as propensões naturais dos Homens.

David Hume, nascido na cidade de Edimburgo, Escócia em 1711, mesma cidade onde morreu em 1776. Em Vida, David Hume, foi conhecido e influente como filósofo e historiador. Famoso, principalmente, por seu Empirismo Radical, posição que o tornava cético.

Alguns pontos importantes, a respeito da filosofia de David Hume, são suas críticas a concepção metafísica de causalidade e ao conceito racionalista de “eu”. Pontos estes, tomados como afronta a tradição filosófica.

Porém, as consequências do ceticismo de Hume, advém de sua adesão a soluções naturalista, isto é, proveniente da Natureza Humana, seus impulsos e necessidades, lugar onde estão, para David Hume, nossas crenças básicas e a forma como agimos.

O TRATADO DA NATUREZA HUMANA – Publicado em 1737 é considerada a obra mais importante de David Hume. Com pouco aceitação, o próprio filósofo se queixa em “My Own Life” em 1776, sua autobiografia. Desta forma, resolve escrever o “Abstract” 1740, retomando o tema da causalidade, então, posteriormente, escreve “A Carta a Um Cavaleiro” em 1745 tentando refutar as objeções feitas ao seu Tratado. Assim, em 1748 escrever a “Investigação Sobre o Entendimento Humano”, uma restruturação da primeira parte do “Tratado da Natureza Humana”.

AS DISTINÇÕES MORAIS NÃO SÃO DERIVADAS DA RAZÃO – Segundo o filósofo, as Ações Humanas são baseadas nas paixões, isto é, nos impulsos e sentimentos. Desta maneira, para Hume, a Ação Moral depende de associações marcadas por sentimentos humanos, como, por exemplo, a simpatia, a benevolência e a compaixão. A razão, em David Hume, trabalha nas relações entre ideia ou nas questões empíricas, ou seja, a razão por si só, é insuficiente para explicar e fundamentar um caráter moral das ações.

Como o própria autor afirma:

“Como a moral, portanto, tem influência sobre as ações e os afetos, não pode ser derivada da razão; isso porque a razão por si só, como já provamos, jamais pode ter tal influência. A moral excita paixões e produz ou evita ações. A razão sozinha é inteiramente impotente nesse particular. As regras da moralidade, portanto, não são deduções de nossa razão.”.

Assim, os seres humanos, agem por que desejam algo e isso está mais relacionado com os sentimentos do que com o raciocínio. O que leva a uma outra afirmativa do autor:

“a razão é, ou deveria ser, apenas a escrava das paixões”.

E, depois, pelo mesmo motivo escreve:

“ (…) uma vez que o vício e a virtude não são descobertos apenas por meio da razão, deve ser graças a um sentimento que estabelecemos a diferença”.

No mesmo texto supracitado “As Distinções (…)” é examinada a moral do ponto de vista prática. Hume, analisa as diferenças entre vícios e virtudes e um confronto entre Juízo Moral com os juízos, que podem ser, Falso ou verdadeiros.

“A verdade e a falsidade consistem na concordância ou discordância com as relações reais das ideias, ou com a existência real das coisas. Portanto, tudo que não seja suscetível a essa concordância ou discordância é incapaz de ser verdadeiro ou falso e nunca pode ser objeto de nossa razão”.

E, então, segue em conformidade com o trecho anterior:

“Os que afirmam que a virtude nada mais é que a conformidade com a razão; que há adequações e inadequações eternas das coisas e que estas são as mesmas para todo ser racional que as considera; que os critérios imutáveis de certo e errado impõem uma obrigação, não só às criaturas humanas, mas ao próprio Deus — todos esses sistemas concordam que a moralidade, como a verdade, é discernida meramente por ideias, e pela justaposição e comparação das mesmas. Portanto, para julgar esses sistemas precisamos apenas considerar se é possível, pela razão somente, distinguir entre o bem e o mal moral, ou se alguns outros princípios devem concorrer para nos permitir fazer essa distinção.”

David Hume, considera que, na mente, somente existe as percepções, assim, todas as ações seja ver, ouvir, julgar, amar, odiar e pensar estão sob esta denominação. Por isso, escreve que:

“Se a moralidade não tivesse naturalmente influência alguma sobre as paixões e ações humanas, seria inútil fazer tantos esforços para inculcá-la; e nada seria mais infrutífero que aquela multidão de regras e preceitos abundantes em todos os moralistas.

Razão, para Hume, é inativa, o que o leva a crer que a razão não tem influência sobre as propensões naturais, desta maneira, as distinções morais não são fruto da razão segundo o autor:

“Ações podem ser louváveis ou condenáveis, mas não podem ser racionais — louvável e condenável, portanto, não é o mesmo que racional ou irracional.”

Outro trecho:

“(…) razão. Ele reside em vós, não no objeto. Assim, quando declarais viciosa alguma ação ou caráter, nada quereis dizer senão que, a partir da constituição de vossa natureza, tendes uma sensação ou sentimento de culpa ao contemplá-la. Vício e virtude, portanto, podem ser comparados a sons, cores, calor e frio, os quais, segundo a filosofia moderna, não são qualidades nos objetos, mas percepções na mente.”.

David Hume

 

Ética de Spinoza em Ética, demonstrada à maneira dos geômetras

Spinoza, conhecido como um dos filósofo mais originais do seu tempo, escreveu sobre Ética de maneira peculiar e criativa articulando a Metafísica, o Conhecimento e a Antropologia Filosófica e Moral.

Nascido em Amsterdam e proveniente de uma família judaica com origem portuguesa, Baruch, ou Benedito Spinoza (1632 – 1677) é conhecido como um dos filósofos mais originais de seu tempo.

Baruch Spinoza escreveu, originalmente em latim, a “Ética, demonstrada à maneira dos geômetras” entre 1661 e 1673 foi uma obra póstuma. Esta, não é simplesmente, ou somente, uma obra a respeito de ética, mas uma obra sobre metafísica que, partindo da ontologia, desenvolve um tratado da Natureza Humana e o fim último do homem, a beatitude. O filósofo, escreve de modo articulado, sobre metafísica, o Conhecimento, a Antropologia filosófica e moral.

ÉTICA, DEMONSTRADA À MANEIRA DOS GEÔMETRAS é escrita sob o more geometrico ou o método geométrico, influencia de Euclides e sua geometria, conhecida, em seu tempo, por ser um modelo de ciência do pensamento exato. Dessa forma, e por isso, começa por definições e axiomas, formula proposições e demonstrações, ou seja, é uma obra extremamente sistemática, onde conceitos definidos são colocados com exatidão. As consequências das definições são tiradas de um método totalmente lógico. Cada parte do sistema de Spinoza interage com a outra parte o que leva a necessidade de compreendê-lo como um todo.

A parte I ou o Livro I “Sobre Deus”, o filósofo discorre sobre questões metafísicas, isto é, Deus, a Substância, seus modos e atributos. Observe que o Deus de Spinoza não é o Deus criador e transcendente das religiões, mas um princípio metafísico que é a própria realidade, por isso a frase: Deus sive natura, ou seja, Deus ou Natureza. Deus é, para Spinoza, uma substância infinita e causa primeira.

A parte II ou o Livro II é “Sobre a Natureza e a Origem da Alma (mentis)” onde Spinoza explora o tema do Conhecimento, relacionando-o a questão da alma e o corpo e a possibilidade de conhecer a realidade.

A parte III ou o Livro III, “Sobre a Natureza e a Origem das Afecções” é onde começa as primeiras definições a respeita da ética.

Danilo Marcondes em “Textos Básicos de Ética: De Platão à Foucault” escreve sobre o que são as afecções em Spinoza:

 “(…) para Spinoza as afecções são formas de pensamento (Livro III, Definição III), podem ser alteradas pela razão. Podemos igualmente analisá-las e descobrir quais as afecções que são boas e quais são más, no sentido das definições (…). As boas afecções são aquelas que contribuem para o desenvolvimento da natureza humana, que aumentam a potência do ser humano.”

A parte IV ou Livro IV “Sobre a Natureza Humana ou Sobre a Força das Afecções” segue o raciocínio e desenvolve as consequências éticas de suas concepções da Natureza Humana sob as problemáticas da Liberdade, do Auto Controle e seus conceitos de Bem Mal.

Para o próprio Spinoza é:

“I. Por bem, entenderei o que sabemos com certeza ser-nos útil.”

“II. E por mal, o que sabemos com certeza impedir que detenhamos um bem.”

A parte V ou Livro V é “Sobre as Potências do Intelecto, ou Sobre a Liberdade Humana” onde Spinoza opta por defender uma ética racionalista. E, no mesmo livro, o filósofo demostra sua concepção de Felicidade, que é o “Amor Intelectual de Deus” que Spinoza entende como o lugar do Indivíduo no Universo.

Potência e Virtude, para Spinoza é o Mesmo segundo definição do próprio autor:

“VIII. Entendo que virtude e potência são a mesma coisa, isto é (pela Prop. 7), a virtude, na medida em que diz respeito ao homem, é a essência mesma ou natureza dele, pois lhe confere o poder de produzir certos efeitos que podem ser compreendidos como as únicas leis de sua natureza.”

A virtude, em Spinoza, é tudo o que ajuda os seres humanos a preservarem seu Ser, isto é, a definição de Autopreservação, e para isto é necessário agir de acordo com a Natureza, ou seja, agir movido pela razão.

Spinoza define assim:

“Quanto mais alguém procura o que lhe é útil, isto é, conservar o seu ser, e tem poder para tal, mais é dotado de virtude; ocorre o contrário quando alguém desdenha o que lhe é útil, isto é, conservar seu ser, e nisto é impotente”

Referencias:

Marcondes, Danilo. Textos Básicos de Ética: De Platão à Foucault.

Spinoza

 

Ética em René Descartes

Mesmo que a filosofia cartesiana, em grande parte, seja sobre epistemologia, é possível pinçar alguns textos sobre outros assuntos, como, nesse caso, ÉTICA!

René Descartes (1596 – 1650) – filósofo francês tido como um dos fundadores da filosofia moderna, e, principalmente, como defensor da ciência moderna fundada por Nicolau Copérnico (1473 – 1543) e expandia por Johannes Kepler (1571 – 1630) e Galileu Galilei (1564 – 1642). Junto a isso, críticas a tradição filosófica, em especial a escolástica medieval.

A filosofia de cartesiana têm como condição essencial a fundamentação de um novo método científico que seja capaz de se tornar o suporte para a ciência moderna, ou seja, a obra de Descartes é, quase que totalmente, voltada as questões epistemológicas – Teoria do conhecimento científico.

Assim, o filósofo francês, escreveu pouco sobre outros temas do pensamento filosófico como ética, estética, ou filosofia política. Para René Descartes os outros assuntos da filosofia, dependiam, diretamente, das soluções a Respeito do Conhecimento e de uma fundamentação de um novo método científico, então, somente a partir desse novo método poderíamos desenvolver um novo sistema filosófico e científico.

Mesmo assim, Descartes, não deixou totalmente à parte as questões éticas e a Natureza humana. Em seu “Tratado do Homem”, publicado após sua morte em 1664 – que deveria unir-se ao “Tratado do Mundo” – formulou uma ciência do ser humano. O próprio Descartes, na parte VI, menciona seu interesse em medicina e no conhecimento da Natureza Humana.

A Moral Provisória de Descartes – na parte III de DISCURSO DO MÉTODO, o filósofo demostra as regras para a Moral provisória – da mesma forma que demonstrou os princípios do método científico na parte II – ainda que uma ciência da moral necessitasse se amparar no conhecimento da natureza humana para determinar as regras do bom agir ou diferenciar Certo de Errado e o Bem e o Mal e, enfim, proporcionar os verdadeiros fins da natureza humana, Descartes, acreditava que não podíamos esperar a fundamentação da ciência do agir. Assim, é necessário regras para uma Moral Provisória que sirva até que que a ciência da moral seja definida e definitiva.

A Distinção entre o Certo e o Errado. Em “As Meditações Metafísicas” – sua principal obra sobre os assuntos que contornavam o debate em sua época – de 1641, Descartes dedicou-se as questões sobre metafísica e a existência de Deus, a imortalidade da alma e a sua relação com o corpo. Neste trabalho, busca mostrar que a nova filosofia que defende não é conflitante com a tradição filosófica.

Assim, na meditação IV, Descartes escreve sobre o problema do Erro, e caracteriza não como efeito das faculdades intelectuais, mas como mau uso da Vontade, ou seja, quando a Vontade esta apoiada em ideias que não são nítidas e inteligíveis. É necessário, então, que a Vontade seja guiada pela razão e não pela paixão. Somente dessa maneira será possível diferenciar o Certo do Errado e o Bem e o Mal.

A vontade e as Paixões da Alma. A ultima obra publicada pelo filósofo francês em 1649. Inicialmente, é analisada a fisiologia humana, de um enfoque mecanicista, ou seja, o corpo humano lhe parece uma máquina. É, então, sob essa ótica que, Descartes, concebe sua moral, e escreve no Art. 48:

 

“Em que conhecemos a força ou a fraqueza das almas, e qual é o mal dos mais fracos. Ora, é pelo sucesso desses combates que cada um pode conhecer a força ou a fraqueza de sua alma, pois aqueles em quem naturalmente a vontade pode vencer com mais facilidade as paixões e interromper os movimentos do corpo que as acompanham têm provavelmente as almas mais fortes; mas há outros que não conseguem experimentar a força de sua alma, uma vez que nunca combatem suas vontades com as próprias armas, mas apenas com as fornecidas por certas paixões com a finalidade de resistir a algumas outras. O que chamo de “próprias armas” são julgamentos firmes e determinados, referentes ao conhecimento do bem e do mal, segundo os quais ele resolveu conduzir as ações de sua vida; e as almas mais fracas de todas são as cuja vontade não se determina assim a seguir certos julgamentos e deixa-se levar constantemente pelas paixões presentes, as quais, não raro contrárias umas às outras, arrastam a vontade sucessivamente para o partido delas, e, usando-a para lutar contra si própria, colocam a alma no estado mais deplorável que possa haver. Assim, enquanto o medo representa a morte como um mal extremo e só pode ser evitado com a fuga, a ambição, por outro lado, significa a infâmia dessa fuga como um mal pior que a morte; essas duas paixões agitam diferentemente a vontade, a qual, ao obedecer ora a uma, ora a outra, opõe-se continuamente a si mesma, e assim torna a alma escrava e infeliz.”

Resumidamente, para Danilo Marcondes (1957), em “Textos Básicos de Ética: De Platão à Foucault”, na edição Kindle escreve:

 

“Descartes fundamenta a sua ética no bom uso, isto é, na utilização racional, do livre-arbítrio e na generosidade, entendida como a decisão de usar corretamente a liberdade, que é a mais elevada das virtudes. Ele aponta para a importância de não se permitir que a vontade fique sujeita às paixões, o que a impediria de nos fazer agir de forma equilibrada. É necessário, assim, que nossas atitudes se baseiem no conhecimento da verdade para que possam ser justas.”

Mesmo assim, isso não significa que as paixões deverão ser simplesmente ignoradas, como o próprio Descarte esclarece no art. 212:

 

“Mas o principal uso da sabedoria está em nos ensinar a ser mestres de nossas paixões e a controlá-las com tal destreza que os males que elas possam causar sejam perfeitamente suportáveis e até mesmo tornem-se fonte de alegria.”

Leia Mais Sobre Ética:

Na Grécia Antiga:

A Origem da Ética 

A Ética em Platão

Ética de Aristóteles em Ética à Nicômaco

E a Ética na idade Média:

A ética de Santo Agostinho – Livre Arbítrio e Confissões

Ética de São Tomás de Aquino – em A Suma Teológica

René Descartes