Ética em Foucault

Influenciado por Nietzsche, Freud e Marx ficou conhecido como um dos mais originais filósofos do século XX, inspirando, assim, diversas área do conhecimento como fiosofia, história, psicologia e ciências socias.

Michel Foucault (1926 – 1984), francês. É considerado um dos pensadores mais originais do século XX. Foucault, através de suas obras, abalou tanto a filosofia como a psicologia e, também, as ciências socias. Influenciado pelo estruturalismo francês e a fenomenologia e, como o próprio autor admite, foi influenciado profundamente por Nietzsche, Freud e Marx.

Principais Obras de Foucault

A História da Loucura (1961), foi seu primeiro trabalho de relevância, inovou a tradicional explicação sobre o conhecimento psiquiátrico e sobre conceitos de loucura e qual a função do louco na sociedade moderna.

O Nascimento da Clínica (1963), um retornou a suas suposições sobre “A História da Loucura”. Com um método arqueológico, reinterpreta a história, tentando demonstrar os pressupostos e elementos subjacentes à alguns saberes determinados dentro do período histórico e, então, relativiza-os.

As Palavras e as Coisas (1966), obra onde o pensador criticou a modernidade, principalmente o iluminismo, questionando seus pressupostos racionalistas e de subjetividade, formulando, assim, sua crítica sobre o nascimento da ciência humana. A partir de uma análise da “formação discursiva”, usando, neste momento, não mais a arqueologia mas, a genealogia – claramente influenciado por Nietzsche – tenta mostrar rupturas e transições entre várias formas de discursos e diferentes períodos históricos.

Arqueologia do Saber (1969), obra onde Foucault começa a esquivar-se do estruturalismo, porém ainda guiado por ele (o estruturalismo) de forma bastante relevante.

Mais tarde, em debates com Jurgen Habermas, Foucault revê seu posicionamento sobre iluminismo a partir de Kant e “O Que é Esclarecimento?”, entendendo a importância kantiana como crítica de um pensamento que busca alternativa.

O Uso Dos Prazeres – Moral e Prática de Si (1984), obra póstuma. Faz parte do segundo volume de “História da Sexualidade” que, por sua vez, faz parte de um projeto maior, em que, Foucault, trabalhava pouco antes de morrer, inclui três volumes “Vontade de Saber” (1976), basicamente metodológico, “Cuidado de Si” (1983) e “Confissões da Carne”(seria o volume 4), ficou inacabado.

O objetivo deste trabalho é aplicar o método genealógico à história da sexualidade desde a Grécia Antiga e o helenismo, passando pelo cristianismo até a modernidade. E, assim, levar adiante sua obra “Vigiar e Punir” (1975), onde crítica os saberes disciplinares que, segundo o filósofo, são formas de controlar os indivíduos e a sociedade.

Para Foucault, as concepções de subjetividade, indivíduo e terapia formaram os saberes, e o período helenístico, com epicurismo e estoicismo, tem relevância essencial nesta formação, desta forma, o pensador, entende que influenciou fortemente a o moral cristã.

Foucault, Michel

Ética em John Stuart Mill, o Utilitarismo

Conhecido e difundido durante o século XVIII, o utilitarismo, atravessou os séculos e, entre críticos e adeptos, se tornou a inspiração para discursos políticos como “bem-estar social” e “Maximização do Benefício”.

John Stuart Mill (1806 – 1873), filósofo, pensador político e ativista liberal. É considerado, por muitos filósofos da língua inglesa, como um dos mais influentes do século XIX. O filósofo foi membro do parlamento inglês em 1885, defendendo, principalmente, os diretos das mulheres, onde apresentou uma petição para estender o sufrágio às mulheres. É conhecido por trabalhos nos campos da filosofia política, economia, lógica e ética – o Utilitarismo.

UTILITARISMO,

como corrente de pensamento ético e político, é originalmente fruto dos pensadores francês Claude-Adrien Helvétius (1715-71) que influenciou o inglês Jeremy Bentham (1748-1832). Os dois pensadores desenvolveram o “Princípio da Utilidade” como critério para o valor moral de uma atitude. Segundo este princípio, o bem moral é aquilo que aumenta os benefícios e reduz a dor e sofrimento. Desta maneira, o valor da ação moral é medido através do maior número de pessoas beneficiadas, ou seja, o caráter ético da ação é avaliado sob o ponto de vista de suas consequências e resultados.

O Utilitarismo foi bastante difundido no século XVIII, durante o iluminismo, pois ia ao encontro de uma demanda por projetos de reforma social. Influenciado pela revolução francesa, que concedeu a Bentham o título de cidadão honorário, constituiu-se como um princípio de aplicação prática.

O “usefull” (útil) é aquilo que contribui para ao bem-estar geral. Desta forma, fica fácil compreender que, o utilitarismo, enquanto pensamento ético, expandiu sua influência para os séculos posteriores, permanecendo como uma das principais correntes filosóficas, no campo da ética, inspirando posições políticas como o de “Bem-estar social” e o conceito de “Maximização do benefício”.

Contudo, o utilitarismo, foi muito criticado por diversos pensadores racionalistas, como, por exemplo Immanuel Kant, contrário a ética das consequências.

O Utilitarismo em John Stuart Mill

Stuart Mill foi um dos maiores defensores do utilitarismo no século XIX – inclusive, o primeiro a utilizar o termo – buscando argumentar contra seus opositores e críticos, escrevendo, em 1863, a obra Utilitarism.

Sob a influência de Helvétius e Bentham, de quem era afilhado, Mill retoma às ideias de seus antecessores e as coloca à disposição de sua militância política, o liberalismo. No entanto, nem sempre os conceitos em defesa de “prazer” e “felicidade” ficam visíveis, da mesma forma, que, não é clara, a passagem entre “prazer” ou “realização individual” para o “bem comum”, o que acaba por promover um debate ainda mais intenso envolta das ideias utilitaristas até os dias atuais.

Para Stuart Mill, o princípio de máxima felicidade é universal, porém, o filósofo considerava que só é possível aplicá-lo a partir de contextos históricos, para, só então, definir que tipo de liberdade e direitos pode ser definidos.

No livro “Utilitarismo” Stuart Mill tenta busca uma definição para o termo enquanto propõe alguns esclarecimentos para responder as objeções tradicionais.

Desta forma, desvincula o termo utilidade como teste para certo e errado e como uma oposição ao prazer, nas palavras de Mill:

“Uma simples observação deveria bastar contra a confusão dos ignorantes que supõem que aqueles que defendem a utilidade como teste do certo e do errado usam este termo no sentido restrito e meramente coloquial em que o útil se opõe ao prazer.”

Depois vincula “prazer” como sendo a própria utilidade junto a ausência de dor. Nas palavras do filósofo Mill:

“Aqueles que sabem um pouco sobre essa questão estão cientes de que todos os autores, de Epicuro a Bentham, que defenderam o princípio da utilidade o entenderam não como algo a ser contraposto ao prazer, mas sim como o próprio prazer, juntamente com a ausência de dor.”

Dessa forma, explica:

“O credo que aceita como fundamento da moral o Útil ou Princípio da Máxima Felicidade, considera que uma ação é correta na medida em que tende a promover a felicidade, e errada quando tende a gerar o oposto da felicidade. Por felicidade entende-se o prazer e a ausência da dor; por infelicidade, dor, ou privação do prazer. Para proporcionar uma visão mais clara do padrão moral estabelecido por essa teoria, é preciso dizer muito mais; em particular, o que as ideias de dor e prazer incluem e até que ponto essa questão fica em aberto.”

John Stuart Mill

 

Ética em Søren Aabye Kierkegaard, Abraão, um Conflito entre a Fé e a Ética

Um dos mais originais filósofos do século XIX, inicia o existencialismo explorando os conflitos e paradoxos da situações-limite entre fé e ética.

Søren Aabye Kierkegaard (1813 – 1855), filósofo dinamarquês. Foi um dos mais originais e importantes pensadores do século XIX. Considerado o filósofo que inicia o existencialismo.

Kierkegaard, em sua obra aborda temas filosóficos, teológicos e literários, em um estilo marcado fortemente pelo cunho pessoal. Utilizando, frequentemente alter ego e heterônimos para representar as diversas perspectivas da realidade e da existência humana, apresentando, inclusive, estilos distintos. Entre os mais conhecidos estão: Victor Eremita, Constantino Constantius, Johannes de Silentio e Johannes Clímaco.

Visceralmente, marcado por uma severa educação luterana, filho de pastor protestante, o filósofo, sempre manteve uma conflituosa relação com a igreja oficial da Dinamarca.

Graduou-se em teologia na Universidade de Copenhagen em 1841, defendendo a tese sobre o Conceito de Ironia em Sócrates. Em seguida, em Berlim, estudou filosofia, onde teve contato com Friedrich Schelling (1775 – 1854).

Sempre de forma autobiográfica, sua obra é bastante assimétrica, evidenciando angustia, principalmente sobre as questões religiosas. Criticou o hegelianismo, muito difundido na Dinamarca, naquela época, questionando o universalismo e o caráter abstrato e especulativo dessa filosofia. Kierkegaard, ao contrário, buscava valorizar a subjetividade e a experiência individual do encontro com o absurdo do mundo diante do silêncio de Deus, que força o indivíduo a buscar sentido para a própria existência.

Ou seja, é a irracionalidade da experiência com o real junto a impossibilidade de decisões racionais e de podermos justificar nossas ações de maneira ética.

Dessa forma, para Kierkegaard, as questões éticas estão vinculadas a impossibilidade de certeza das escolhas, assim, não poder justificá-las. Para isso, então, é necessário um “salto no escuro”, isto é, é necessário fé, que está além da racionalidade, da justificação ou até mesmo da compreensão.

Em Temor e Tremor de 1843, o filósofo faz referência a epístola de são Paulo aos filipenses, 2 -12, assinando com pseudônimo de Johannes de Silentio, que, por sua vez, é baseado em um personagem do conto dos irmãos Grimm. No texto, Kierkegaard, retoma a história do sacrifício de Isaac, gênesis 22, no antigo testamente, discutindo a questão do supremo sacrifício sem esperança de recompensa, explicações ou justificativas.

Discute, assim, situações-limite, onde princípios éticos – como no caso de Abraão de proteger seu filho – são colocados à prova por princípios mais elevados, isto é, a ordem divina, e, pela fé, que deve ser seguida, mesmo sem conseguir compreendê-la. O conflito está então entre a ética e a fé, ou seja, entre aquilo que é possível compreender e aquilo que não é possível compreender, mas, simplesmente, crer.

O que o filósofo deseja explorar é os conflitos e paradoxos das situações-limite, como a de Abraão, onde o ser humano é colocado à prova sem qualquer explicação, o que causa “aniquilamento” para usar as palavras do próprio autor:

“Quando me ponho a refletir sobre Abraão, sinto-me aniquilado”.

Immanuel Kant em A religião no Limite da razão de 1793, considera, em oposição a atitude de Abraão, que uma pessoa que chega a conclusão que Deus ordenou agir de forma não ética deve estar errada. Porém, em Kierkegaard, Abraão vive um conflito ético entre o dever com seu filho ou o dever com Deus, que no caso, prevalece. Para o filósofo dinamarquês, Abraão não negou a ética ao aceitar fazer o sacrifício de Isaac, mas submete a ética a uma “Suspensão Teleológica” – isto é, a ética esta suspensa enquanto a fé estiver envolvida.

Para Kierkegaard, o silêncio de Abraão é por conta da inexplicável condição em que se encontra, desta forma, seria inútil tentar fazer os outros compreenderem o seu conflito interior. Nas palavras do filósofo:

“quando a esperança se torna absurda, Abraão crê”.

Ou seja, é a fé de Abraão, no final, que salva Isaac, quando deus envia um anjo para substituir Isaac por um cordeiro.

Abraão vive uma experiência individual e radical, onde não encontra explicações nem respostas cabíveis nos princípios universais e abstratos da ética.

Kierkegaard, Søren Aabye

 

Ética em Immanuel Kant

Immanuel Kant é, entre os modernos filósofos da ética, provavelmente, o mais influente deles. Com uma ética de princípios e seu racionalismo conquistou muitos seguidores no decorrer dos séculos seguintes

O filósofo prussiano, Immanuel Kant (1724 – 1804), está entre os pensadores da ética mais influentes do período moderno. Com uma ética de princípios e seu racionalismo, conquistou importantes seguidores no pensamento contemporâneo, pensamento, este, que se desenvolve através da influência da obra kantiana.

A Crítica da Razão Pura de 1781 inicia a fase crítica da obra do filósofo à qual é possível notar na sequência em Crítica da Razão Prática de 1788, sua obra mais importante no campo da ética. Immanuel Kant, têm como objetivo central a investigação da Razão no sentido Teórico e Prático. Dessa forma, passa a examinar as condições em que a razão funciona, como ela opera e, também, qual seu objetivo.

No ponto de vista TEÓRICO, o filósofo, refere-se ao conhecimento legítimo da realidade apoiado nas distinções entre entendimento e conhecimento. Já, na PRÁTICA, trata-se da livre escolha dos seres racionais, que podem ou não obedecer à lei moral, que é, para Kant, a consequência da Razão Pura, no sentido prático. Desta forma, age eticamente aquele que é competente em se autodeterminar. Ou seja, a autonomia da razão é um pressuposto fundamental da ética kantiana.

A Fundamentação da Metafísica dos Costumes de 1785, é a primeira, entre as três principais obras do filósofo sobre ética. Obra que estabelece as bases que Immanuel Kant usará na obra posterior, supracitada, Crítica da Razão Prática de 1788, e, então posteriormente a conclusão com Metafísica do Costumes de 1797-8.

Mesmo que no prefácio de Metafísica dos Costumes Kant afirme que deseja:

“(…) formular uma filosofia moral pura, completamente depurada de tudo que fosse apenas empírico e que pertencesse ao campo da antropologia”

O filósofo também se atentou para as questões morais concretas e de aplicação prática dos princípios éticos.

Textos menos conhecidos como a Carta a Maria Von Herbert de 1792 e Sobre a Relação entre teoria e Prática na Moral em Geral de 1793, assim como outros, publicados após sua morte e incluídos no Opus Postumum, são valorizados por diversos interpretes contemporâneos, principalmente por apresentarem a preocupação de Kant com questões de ordem prática e de natureza concreta. Ou seja, levam em consideração as emoções e os sentimentos da perspectiva da ética, indo além do racionalismo da Crítica da Razão Pura.

Assim, é possível notar que ética é parte fundamental na filosofia kantiana, o que é demonstrado nas formulações dos problemas centrais propostos como: “O Que Posso Saber?”, “O Que Devo Fazer?”, “O Que é Lícito Esperar?” e “O Que é o Homem?”. Com isto posto, O filósofo nos apresenta a seguinte conclusão:

“À primeira questão, responde a metafísica; à segunda, a moral; à terceira, a religião; e à quarta, a antropologia. Mas, no fundo, poderíamos atribuir todas à antropologia porque as três primeiras questões remetem à última.”

O Imperativo Categórico, famoso princípio Kantiano:

“age somente de acordo com aquela máxima pela qual possas ao mesmo tempo querer que ela se torne uma lei universal”.

Exposto em Fundamentação da Metafísica dos Costumes, determina que a ação moral é aquela que pode ser universalizada. Isto é, de acordo com o texto, os deveres e princípios éticos não aceitam exceção. O Imperativo mostra o que deve ser feito por que deriva da própria razão. O mesmo conceito de Imperativo Categórico ainda é revisitado, pelo filósofo, na Analítica da Crítica da Razão Pura.

Em O Que é Esclarecimento? de 1784, Immanuel Kant, tenta responder a um pastor que o havia questionado a respeito do conceito de esclarecimento ou sobre iluminismo. Desta forma, o filósofo elabora a discussão em torno da autonomia do indivíduo no exercício da própria razão, pois somente desta maneira que é possível ter Maturidade, segundo o conceito kantiano, ou seja, somente assim que se pode caracterizar liberdade.

Para Immanuel Kant:

“O Esclarecimento é a saída do homem da condição de menoridade autoimposta. Menoridade é a incapacidade de servir-se de seu entendimento sem a orientação de um outro.”

Depois segue:

“Esta menoridade é autoimposta quando a causa da mesma reside na carência não de entendimento, mas de decisão e coragem em fazer uso de seu próprio entendimento sem a orientação alheia. Sapere aude! Tenha coragem em servir-te de teu próprio entendimento! Este é o mote do Esclarecimento.”

Immanuel Kant

 

Ética de Spinoza em Ética, demonstrada à maneira dos geômetras

Spinoza, conhecido como um dos filósofo mais originais do seu tempo, escreveu sobre Ética de maneira peculiar e criativa articulando a Metafísica, o Conhecimento e a Antropologia Filosófica e Moral.

Nascido em Amsterdam e proveniente de uma família judaica com origem portuguesa, Baruch, ou Benedito Spinoza (1632 – 1677) é conhecido como um dos filósofos mais originais de seu tempo.

Baruch Spinoza escreveu, originalmente em latim, a “Ética, demonstrada à maneira dos geômetras” entre 1661 e 1673 foi uma obra póstuma. Esta, não é simplesmente, ou somente, uma obra a respeito de ética, mas uma obra sobre metafísica que, partindo da ontologia, desenvolve um tratado da Natureza Humana e o fim último do homem, a beatitude. O filósofo, escreve de modo articulado, sobre metafísica, o Conhecimento, a Antropologia filosófica e moral.

ÉTICA, DEMONSTRADA À MANEIRA DOS GEÔMETRAS é escrita sob o more geometrico ou o método geométrico, influencia de Euclides e sua geometria, conhecida, em seu tempo, por ser um modelo de ciência do pensamento exato. Dessa forma, e por isso, começa por definições e axiomas, formula proposições e demonstrações, ou seja, é uma obra extremamente sistemática, onde conceitos definidos são colocados com exatidão. As consequências das definições são tiradas de um método totalmente lógico. Cada parte do sistema de Spinoza interage com a outra parte o que leva a necessidade de compreendê-lo como um todo.

A parte I ou o Livro I “Sobre Deus”, o filósofo discorre sobre questões metafísicas, isto é, Deus, a Substância, seus modos e atributos. Observe que o Deus de Spinoza não é o Deus criador e transcendente das religiões, mas um princípio metafísico que é a própria realidade, por isso a frase: Deus sive natura, ou seja, Deus ou Natureza. Deus é, para Spinoza, uma substância infinita e causa primeira.

A parte II ou o Livro II é “Sobre a Natureza e a Origem da Alma (mentis)” onde Spinoza explora o tema do Conhecimento, relacionando-o a questão da alma e o corpo e a possibilidade de conhecer a realidade.

A parte III ou o Livro III, “Sobre a Natureza e a Origem das Afecções” é onde começa as primeiras definições a respeita da ética.

Danilo Marcondes em “Textos Básicos de Ética: De Platão à Foucault” escreve sobre o que são as afecções em Spinoza:

 “(…) para Spinoza as afecções são formas de pensamento (Livro III, Definição III), podem ser alteradas pela razão. Podemos igualmente analisá-las e descobrir quais as afecções que são boas e quais são más, no sentido das definições (…). As boas afecções são aquelas que contribuem para o desenvolvimento da natureza humana, que aumentam a potência do ser humano.”

A parte IV ou Livro IV “Sobre a Natureza Humana ou Sobre a Força das Afecções” segue o raciocínio e desenvolve as consequências éticas de suas concepções da Natureza Humana sob as problemáticas da Liberdade, do Auto Controle e seus conceitos de Bem Mal.

Para o próprio Spinoza é:

“I. Por bem, entenderei o que sabemos com certeza ser-nos útil.”

“II. E por mal, o que sabemos com certeza impedir que detenhamos um bem.”

A parte V ou Livro V é “Sobre as Potências do Intelecto, ou Sobre a Liberdade Humana” onde Spinoza opta por defender uma ética racionalista. E, no mesmo livro, o filósofo demostra sua concepção de Felicidade, que é o “Amor Intelectual de Deus” que Spinoza entende como o lugar do Indivíduo no Universo.

Potência e Virtude, para Spinoza é o Mesmo segundo definição do próprio autor:

“VIII. Entendo que virtude e potência são a mesma coisa, isto é (pela Prop. 7), a virtude, na medida em que diz respeito ao homem, é a essência mesma ou natureza dele, pois lhe confere o poder de produzir certos efeitos que podem ser compreendidos como as únicas leis de sua natureza.”

A virtude, em Spinoza, é tudo o que ajuda os seres humanos a preservarem seu Ser, isto é, a definição de Autopreservação, e para isto é necessário agir de acordo com a Natureza, ou seja, agir movido pela razão.

Spinoza define assim:

“Quanto mais alguém procura o que lhe é útil, isto é, conservar o seu ser, e tem poder para tal, mais é dotado de virtude; ocorre o contrário quando alguém desdenha o que lhe é útil, isto é, conservar seu ser, e nisto é impotente”

Referencias:

Marcondes, Danilo. Textos Básicos de Ética: De Platão à Foucault.

Spinoza

 

Ética de São Tomás de Aquino em A Suma Teológica

Como Santo Agostinho, São Tomás de Aquino realiza uma leitura Cristã dos antigos filósofos gregos. Com ênfase em Aristóteles, São Tomás tornou-se, em sua época, o principal nome a demonstrar a compatibilidade da antiga filosofia grega com o cristianismo

Da mesma forma que Agostinho [1] havia feito 800 anos antes, são Tomás de Aquino (1225 – 1274) produz uma leitura cristã da filosofia Grega, com ênfase em Aristóteles [2]. Assim, Tomás de Aquino, tornou-se o principal nome, em sua época, a demonstrar a compatibilidade entre a ética aristotélica e o cristianismo. Com isso, criou condições para a leitura da filosofia de Aristóteles no final do século XIII que, sob diversas vertentes, perdurou até o final do século XV. E, ainda, é possível encontrar seguidores nos escolásticos da Era Moderna, sobre tudo em questões éticas.

São Tomás ao absorver o pensamento aristotélico sobre Virtude considerando a possibilidade de aperfeiçoamento da Natureza Humana cria um contraste entre a sua ética e a ética de santo Agostinho que, vigente até momento e  perpetuada por pensadores como Bernardo de Clairvaux (1091 – 1153), consideravam, o homem, um ser imperfeito e marcado pelo pecado original.

A VIRTUDE PARA SÃO TOMÁS DE AQUINO, não é o mesmo que para os antigos filósofos gregos – que a relacionavam aos valores da cidade [3] [4] com valores como Coragem, Amizade e Lealdade. Para Tomás de Aquino as Virtudes Teologais são as realmente importantes como a , a Esperança e a Caridade no sentido de amor ao próximo e a Deus. Tomás de Aquino, ainda, reinterpreta o conceito aristotélico de Felicidade transformando-o em Beatitude – visão beatífica de Deus somente possível pela Revelação e Graça Divina.

Outra diferença importante entre o filósofo grego Aristóteles e Tomás de Aquino é sobre o Pecado Original, conceito do filósofo cristão que é inexistente no pensador grego. Apesar das diferenças é possível constatar que Tomás de Aquino invoca constantemente os conceitos aristotélicos como por exemplo Ato/Potência, Finalidade (telos) e o Ente (ens).

A SUMA TEOLÓGICA DE SÃO TOMÁS DE AQUINO escrita, ao estilo de Suma Teológica Medieval, entre 1266 e 1274 que, apesar de ser uma obra inacabada, é o mais importante feito do autor. É uma síntese de caráter sistemático das questões centrais da sua concepção de filosofia e teologia.

A Suma é organizada por meio de respostas às principais questões das áreas tradicionais da filosofia, o Ser, o Conhecimento, e a Verdade e, também, as principais questões da teologia Deus, a Criação, a Graça Divina, os Sacramentos.

É importante notar que Tomás de Aquino utiliza-se tanto da autoridade da Bíblia como dos antigos filósofos gregos, em especial, é claro, Aristóteles.

São Tomás, escreveu também comentários sobre as obras de Aristóteles com destaque para o Corolário à ética a Nicômaco onde retoma questões de sua Suma Teológica.

O Mal Está nas Coisas? Ou A Natureza do Mal. na primeira parte da Suma, Tomás de Aquino analisa por que Deus sendo Bom pode ter criado o Mal, discutindo a tese Agostiniana onde o Mal é privação. Tomás de Aquino rejeita essa ideia e em seguido também a ideia de que o Mal é alguma coisa ou uma entidade passando a compreendê-lo como parte da natureza no sentido de corrupção das coisas que foram criadas por Deus coisas, essas, que podem ser perecíveis e imperfeitas.

Parte I da Suma Teológica “Sobre o Deus Criador” São Tomás escreve sobre A Natureza do Mal:

 

“Respondo que, segundo o que foi dito acima, a perfeição do Universo requer que haja desigualdade entre as coisas de modo que todos os graus de bondade se realizem. Há um grau de bondade em que uma coisa é tão boa que não pode deixar de existir. Há outro em que a coisa é boa de modo que pode deixar de existir. E tais gradações se encontram também no ser. Há coisas, as incorruptíveis, que não podem perder o próprio ser, e há outras, as corruptíveis, que podem perdê-lo. A perfeição do Universo requer que haja coisas incorruptíveis assim como coisas corruptíveis, portanto, que haja coisas que possam deixar de ser boas, o que de fato por vezes ocorre. Assim, é evidente que o mal está presente nas coisas, bem como a corrupção, que é uma espécie de mal.”

E, então, segue:

 

“Não é próprio da Providência destruir a natureza, mas sim salvá-la, e segundo Dionísio (Tratado dos nomes divinos, IV) faz parte da natureza que coisas que podem falhar algumas vezes falhem. Ou ainda, como afirma Agostinho (Enchirydion, II), Deus é tão poderoso que pode até fazer o bem a partir do mal. Assim sendo, muitos bens não existiriam se Deus não permitisse a existência de nenhum mal, pois o fogo não seria produzido se o ar não fosse corrompido, a vida do leão não seria preservada se o asno não fosse morto e não se elogiaria a justiça punitiva, nem a paciência do que sofre, se não existisse a iniquidade.”

Homem Possui Livre Arbítrio? Em “Tratado Sobre o Homem”, questão 83, são Tomás escreve a respeito no sentido de Ato Voluntário e Escolha Pessoal. Para Tomás de Aquino o Livre Arbítrio é derivado da racionalidade humana e é um pressuposto da ética – a saber, a possibilidade de escolha. Veja:

 

 “(…) o homem possui o livre-arbítrio, caso contrário seriam vãos os conselhos, as exortações, as ordens, as proibições, as recompensas e as punições. Como evidência disso deve-se considerar que algumas coisas agem sem juízo. Por exemplo, a pedra que se move para baixo e todas as outras coisas que carecem de conhecimento. Outras agem com juízo, mas este não é livre, como no caso dos animais. Por exemplo, a ovelha quando vê o lobo julga que deve fugir, mas tal decisão não é livre, pois ela julga não por comparação, mas por instinto natural. Isso acontece com todos os juízos dos animais. Porém o homem age com juízo porque, devido a sua capacidade cognitiva, julga se deve fugir de alguma coisa ou procurá-la. Mas como seu juízo não resulta de uma aplicação do instinto natural a uma ação particular, e sim de uma comparação realizada pela razão, o homem age de acordo com seu livre juízo, podendo orientar-se para diferentes decisões. A razão pode, com efeito, em relação ao contingente, seguir direções opostas, como nos mostram os silogismos dialéticos e os argumentos retóricos. Como as ações particulares são contingentes, o juízo da razão sobre elas se aplica a diversas ações e não a uma única determinada. Portanto, é necessário que o homem possua o livre-arbítrio pelo simples fato de ser racional.”

A Virtude é um Habito? Na parte II da Suma teológica encontra-se o “Tratado dos Hábitos e das Virtude”, seguindo Aristóteles, entendendo Virtude como um hábito são Tomás concede uma definição, caracterizando os bons hábitos, ou seja, a Virtude.

 

 “Algumas vezes denominamos “virtude” aquilo a que a virtude se dirige, seja o seu objeto ou o ato correspondente. Por exemplo, chamamos de “fé” aquilo em que acreditamos ou o ato de acreditar, bem como o hábito pelo qual acreditamos. Quando dizemos que a virtude é o mais elevado grau de uma potência, “virtude” é entendida como “objeto da virtude”, uma vez que o ponto máximo que uma potência pode atingir é considerado a sua virtude.”

[1] Ética em Santo Agostinho – Livre Arbítrio e Confissões

[2] Ética de Aristóteles em Ética a NICÔMACO

[3] Origem da Ética

[4] Democracia Antiga e Moderna – Diferenças Fundamentais

ÉTICA em SANTO AGOSTINHO – Livre Arbítrio e Confissões.

Santo Agostinho foi o primeiro a fazer leitura Cristã da Antiga filosofia Grega. Assim, marcou não somente a Idade Média, mas influenciou o início da Idade Moderna.

Santo Agostinho (354 d.C – 430 d.C) é, para tradição filosófica ocidental, o representante da primeira síntese entre a filosofia Grega e o cristianismo, principalmente o platonismo – VER Ética em Platão [1]. Dessa forma, Agostinho, com sua obra, não somente marcou a Idade Média, mas, também influenciou o início da Idade Moderna.

A Ética de Agostinho resulta de releituras da filosofia ética Grega [2] em especial Platão e a de origem Romana, em especialmente Sêneca () e seu estoicismo – com o diálogo Beata Vita ou A Vida Feliz, que influenciou seu texto de mesmo nome. E, Hortensius, de Cícero (106 – 43 a.C), sobre filosofia que, segundo o próprio Agostinho, despertou seu interesse por filosofia. Mas, é, em Platão, com leituras à luz do cristianismo, que Agostinho constrói sua filosofia.

Deste modo, as questões levantadas por Agostinho, são uma herança grega tratadas sob o viés Cristão, como, por exemplo, A Natureza Humana e o Caráter inato da Virtude, a Origem do Mal, o Conceito de Felicidade, Liberdade, e a possibilidade de agir de forma Ética.

À vista disso, há duas questões fundamentais na Ética de Agostinho, questões essas que permanecem até os atuais na Ética Cristã.

Afinal, qual a Origem do Mal? Um dos principais temas que contornava o debate na época de Agostinho, pois, a doutrina maniqueísta era muito forte naquele momento e defendiam a existência dos princípios equivalentes, ou seja, o Bem e o Mal em luta constante, identificando em ambos, respectivamente, Deus e o diabo.

Desta maneira, questionavam se Deus é perfeito e entre seus atributos esta a Suprema Bondade – identificada até certo ponto, com a Forma do Bem de Platão – como é possível a existência do Mal? Deus, que é Bom, poderia criar o Mal?

Como Platão, Agostinho defende que só é possível existir o Bem, assim, o Mal, é, na verdade, a ausência do Bem. Deus é bom, mas os seres foram criados inferiores na ordem do Ser, são, portanto, imperfeitos e finitos. O Mal, tem origem a falha ou imperfeição. Esta foi, e é, a solução ética e teológica, criada para o problema da existência do Mal.

Em Confissões, capitulo de 16, Agostinho:

“Senti e não estranhei que o pão tão saboroso ao paladar saudável seja enjoativo ao paladar enfermo e que a luz agradável aos olhos que veem bem seja desagradável aos doentes. E a Vossa justiça é desagradável aos maus — o mesmo acontece com a víbora e os répteis, que foram criados bons e adequados à parte inferior da Criação, à qual os seres maus também pertencem —, sendo tão mais semelhantes quanto são diferentes de Vós. Do mesmo modo, os maus são tão mais semelhantes aos seres superiores quanto mais se tornam semelhantes a Vós. Indaguei sobre a maldade e não encontrei uma substância, mas sim a perversão da vontade afastada de Vós, o Ser Supremo, tendendo em direção às coisas inferiores, expelindo as suas entranhas e inchando-se toda.”

A segunda questão, e diretamente relacionada à primeira é: A LIBERDADE HUMANA. Por quê…

“Se a natureza humana é marcada pelo pecado original, a imperfeição originada na fraqueza de Adão, e faz com que o ser humano esteja sujeito à tentação e aja contrariamente à lei moral, então haveria um determinismo que tornaria inevitável o pecado e, por conseguinte, a ação antiética. Paradoxalmente, os indivíduos não seriam, em última análise, responsáveis por seus atos, já que são levados ao pecado pela própria falha de sua natureza. Neste sentido, não teriam o domínio de suas ações, pois suas atitudes seriam determinadas por esta falha. O ser humano é, assim, compelido a agir contrariamente à ética. Se sua ação é determinada e ele é compelido, então não tem escolha ou liberdade e, portanto, não estaria verdadeiramente pecando.” [3].

Assim, o Livre Arbítrio ou Liberdade Individual, é, para Santo Agostinho, o aspecto humano mais importante, pois, o torna responsável por suas escolhas e decisões. Então, o ser humano com o Livre Arbítrio, pode agir, se bem entender, de forma ética ou não. O Mal Moral, ou o pecado, em Agostinho, resulta das escolhas individuais. Esta possibilidade foi concedida por Deus, para que cada um, individualmente, seja responsável por seus atos. Estejam certos ou errados.

Agostinho, no livro II – em diálogo com Evódio, responde este questionamento e concluí que sem o Livre Arbítrio o homem não poderia ser responsabilizado por seus atos.

“Se é verdade que o homem em si é bom mas não poderia agir bem exceto por querer, seria preciso que tivesse vontade livre para que pudesse agir desse modo. De fato, não é porque o homem pode usar a vontade livre para pecar que se deve supor que Deus a concedeu para isso. Há, portanto, uma razão pela qual Deus deu ao homem esta característica, pois sem ela não poderia viver e agir corretamente. Pode – se compreender, então, que ela foi concedida ao homem para esse fim, considerando – se que se um homem a usar para pecar recairão sobre ele as punições divinas. Ora, isso seria injusto se a vontade livre tivesse sido dada ao homem não apenas para agir corretamente, mas também para pecar. Na verdade, por que deveria ser punido aquele que usasse da sua vontade para o fim para o qual ela lhe foi dada? Quando Deus pune o pecador, não te parece que lhe diz o seguinte: “Estou te punindo porque não usaste de teu livre-arbítrio para fazer aquilo para o que eu o concedi a ti”? Ou seja, para agires corretamente. Entretanto, se o homem não fosse dotado de livre-arbítrio, não poderia existir esse bem que consiste na realização da justiça através da condenação dos pecados e da premiação da ação correta. A conduta de um homem não poderia ser caracterizada nem como correta nem como um pecado, não fosse pelo livre-arbítrio. Da mesma maneira, tanto a punição quanto a recompensa seriam injustas se o homem não tivesse o livre-arbítrio. É preciso que a justiça esteja presente na punição e também na recompensa, porque este é um bem que vem de Deus. Concluo, portanto, que era necessário Deus conceder ao homem o livre-arbítrio.”

[1]. Ética em Platão

[2]. Origem da Ética

[3]. Danilo Marcondes em “Textos Básicos Sobre Ética: De Platão a Foucault

Santo Agostinho

ÉTICA de Aristóteles em ÉTICA a NICÔMACO

A Ética de Aristóteles é Sistemática e Analítica. Ao contrário de Platão, Aristóteles busca uma ética objetiva.

Como já visto, em Ética em Platão [1] as questões levantadas são interligadas, ou seja, passa-se de Verdade e Conhecimento para problemas de Natureza Éticas. Já, a Ética em Aristóteles (384 – 322 a. C) é de caráter sistemático e analítico [2]. Para Aristóteles a vida humana é dividida em três grandes grupos: O SABER TEÓRICO, ou Campo de Conhecimento; O SABER PRÁTICO, ou Campo de Ação; e o SABER CRIATIVO, ou produtivo.

Outra distinção a ser feita é o que diz respeito aos textos que chegaram aos dias atuais. Ao passo que os textos de Platão nos apresentam diálogos os de Aristóteles são, infelizmente, apenas as notas de aulas que nos sobraram. Apesar de Aristóteles também ter produzido diálogos. Tal diferença faz com que os textos aristotélicos aparentem mais “frios”.

No sistema aristotélicos, Ética e Política, são parte do “Saber Prático”, como contraposição ao “Saber Teórico”.

Enquanto a área de domínio do Campo Saber Teórico é a metafisica, a matemática e as Ciências Naturais – principalmente a física, com o intuito de conhecer a realidade. Ou seja, leis e princípios gerais. À medida que, no Campo Prático, o objetivo é determinar em quais condições podemos agir da melhor maneira possível aspirando o objetivo principal que é a felicidade (eudaimonia), ou realização pessoal. O Saber prático é intitulado de “Prudencial”, por ser definido por prudência.

Mas, afinal, O QUE É FELICIDADE e como o SER HUMANO pode alcança-la? São as indagações de Aristóteles em ÉTICA A NICÔMACO. Para isso, Aristóteles analisa a Natureza Humana, e as características que a define da perspectiva da ética, ou seja, as VIRTUDES. Desta forma, a maior parte do texto é destinado aos conceitos de VIRTUDE MORAL (areté), ou excelência de caráter.

Aristóteles define seus objetivos como práticos, ao mesmo tempo em que crítica Platão e sua Forma do bem ou Forma da ideia, por ter caráter genérico e abstrato, o que o distancia da Natureza humana. Como o próprio Aristóteles destaca:

“Acontece o mesmo em relação à forma do bem; ainda que haja um bem único que seja um predicado universal dos bens, ou capaz de existir separada e independentemente, tal bem não poderia obviamente ser praticado ou atingido pelo homem, e agora estamos procurando algo atingível” [2].

Para Aristóteles FELICIDADE OU BEM-ESTAR, é apresentada como algo que todos desejam e buscam e também como objetivo da ética. Veja:

“Chamamos aquilo que é mais digno de ser perseguido em si mais final que aquilo que é digno de ser perseguido por causa de outra coisa , e aquilo que nunca é desejável por causa de outra coisa chamamos de mais final que as coisas desejáveis tanto em si quanto por causa de outra coisa , e portanto chamamos absolutamente final aquilo que é sempre desejável em si , e nunca por causa de algo mais . Parece que a felicidade, mais que qualquer outro bem, é tida como este bem supremo, pois a escolhemos sempre por si mesma, e nunca por causa de algo mais;” [2].

Porém, em seu último livro de Ética a Nicômaco, Aristóteles aclara que felicidade não é deve ser confundida com Prazeres. Mas, sim, entendida em um sentido mais elevado, ou seja, como a contemplação das verdades eternas. Isso quer dizer: é uma característica dos sábios ou dos filósofos.

“De fato, toda a existência dos deuses é bem-aventurada, e a atividade dos seres humanos também o é enquanto apresenta alguma semelhança com a atividade divina, mas nenhum dos outros animais participa da felicidade, porque eles não participam de forma alguma da atividade contemplativa. Então a felicidade chega apenas até onde há contemplação, e as pessoas mais capazes de exercerem a atividade contemplativa fruem mais intensamente a felicidade, não como um acessório da contemplação, mas como algo inerente a ela, pois a contemplação é preciosa por si mesma” [2].

E o que é VIRTUDE? Para Aristóteles é um hábito. Ao contrário de Platão, Aristóteles acredita que virtude pode ser ensinada. Inclusive, esse deve ser o objetivo da filosofia. A virtude não é inata, mas pode ser aprendida e tornar-se um hábito. Ou seja, é preciso prática para se tornar virtuoso. No livro VI Aristóteles clarifica Virtude e o Saber prático em cinco formas: a Arte (techné), o Conhecimento Científico (episteme), a Prudência que é o Saber Prático ou Discernimento (phronesis), a Intuição Intelectual (noesis), e Sabedoria (sophia).

Outro conceito importante é MEIO-TERMO OU A JUSTA MEDIDA (mesotes). É um dos princípios fundamentais na obra Aristotélica. Pois, Aristóteles acredita que, tratando-se de Ética, os extremos são danosos, tanto para excesso quanto à falta de algum atributo. Ou seja, é necessário o equilíbrio. O que pode variar com as situações e ou circunstâncias. Para Aristóteles, moderação é característica de indivíduos éticos.

“Em relação ao meio – termo, em alguns casos é a falta e em outros é o excesso que está mais afastado ; por exemplo , não é a temeridade, que é o excesso, mas a covardia, que é a falta , que é mais oposta à coragem, e não é a insensibilidade, que é uma falta, mas a concupiscência, que é um excesso, que é mais oposta à moderação.” [2].

[1]. Ética em Platão

[2]. Marcondes, Danilo. Textos Básicos de Ética: De Platão à Foucault. Edição do Kindle.

Busto de Aristóteles sobre fundo preto.

ÉTICA EM PLATÃO

Platão, sob a influêcia de seu mestre, Socrátes, discorre sobre diversos temas relacionados à ética.

Quadro Escola de Atenas de Rafaello Sanzio (1483-1520)

Platão (428/427 – 348/347) é considerado o primeiro grande filósofo a trazer à tona o tema ÉTICA. [1] Assuntos como: amizade (lisis), a virtude (mênon), a coragem (laqueado) e o sentimento religioso (eutífron), foram introduzidos no cotidiano grego através dos diálogos platônicos, e discutidos filosoficamente até os dias atuais.

São diálogos entre Sócrates e personagens históricos do cotidiano ateniense e, alguns outros, fictícios, que discutem sobre temas éticos. Acredita-se que Platão, nesse período, está sob a influência de seu mestre Sócrates.

Sócrates, através das letras de Platão, irá levantar importantes questionamentos éticos. Pontos que, no decorrer da história, rendera a filosofia discussões fundamentais como: conceitos, critérios de aplicações na prática cotidiana. E, se, a ética, é parte da natureza humana ou se são apreendidas e, se é possível ensiná-la.

Platão usa, em seus diálogos, o estilo aporético, ou seja, não é possível encontrar uma solução definitiva para os problemas levantados, ou, ao menos, definir conceitos éticos.

Para Danilo Marcondes em “Textos Básicos Sobre Ética: De Platão a Foucault” escreve citando o próprio Sócrates:

“Talvez a lição socrática esteja principalmente na importância do desenvolvimento de uma consciência moral, de uma atitude reflexiva e crítica que nos leve a adotar comportamentos mais éticos, e não na formulação de um saber sobre a ética e seus conceitos. É o que diz Sócrates na célebre passagem da Apologia (38a): “A vida sem exame não vale a pena ser vivida.”

Os diálogos socráticos têm caráter teórico. É o momento em que, Platão desenvolve sua teoria metafísica, conhecida como Teoria das formas ou Teoria das Ideias.

Platão em “Republica” nos livros VI e VII caracteriza a Forma do Bem como “Suprema Forma”, este é seu princípio metafísico mais importante. Desta forma, por ser de difícil explicação, e, principalmente, ser um princípio, o filósofo fornece três mitos para facilitar a exemplificação da sua Teoria. A trilogia “Mito do Sol”, “Linha Dividida” e “A Caverna”. Para esclarecer, em linguagem figurada, a Natureza do Bem.

Na alegoria da Caverna, através de Sócrates, Platão diz:

Nos últimos limites do mundo inteligível aparece-me a ideia (ou forma) do Bem, que se percebe com dificuldade, mas que não se pode ver sem se concluir que ela é a causa de tudo que há de reto e de belo”

Ou seja, para Platão, o sábio é quem alcançou o Bem através da dialética – Ascensão da Alma – até um lugar mais elevado e abstrato do real, podendo, desta maneira, agir de forma justa. 

“Pois ao conhecer o Bem, conhece também a Verdade, a Justiça e a Beleza. É por este motivo que a concepção ética de Platão ficou conhecida como “metafísica do Bem”. A forma do Bem é, por conseguinte, o fundamento da ética.” [2]

Mesmo que Platão faça, posteriormente, uma revisão crítica de sua Teoria das Formas ou Teoria das Ideias, as preocupações éticas reaparecem entre seus últimos diálogos conhecidos, como, por exemplo, Filebo e As Leis.

CONCLUSÃO. Desta forma, é possível compreender o que é fundamental na obra de Platão:

O indivíduo que age de modo ético é aquele que é capaz de autocontrole, de “governar a si mesmo”, como vemos no Górgias. Entretanto, a possibilidade de agir corretamente e de tomar decisões éticas depende de um conhecimento do Bem, que é obtido pelo indivíduo por meio de um longo e lento processo de amadurecimento espiritual, “a ascensão da alma”, tal como descrita na Alegoria da Caverna.”[2]

[1]. Origem da Ética. Os gregos estabelecem uma vida moral como sendo uma vida boa, bem-sucedida – a eudaimonia.

[2]. Danilo Marcondes em “Textos Básicos Sobre Ética: De Platão a Foucault”.